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Primeiro de Novembro

Esse texto faz parte do livro que estou escrevendo. Em cada primeiro dia do mês escrevo uma carta que estará publicada no capítulo de uma retrospectiva de 2020. Segue a carta desse mês:

Estamos há dois dias das eleições americanas e quase 100 milhões já votaram. As pesquisas dão a vitória ao Biden… será? Em 14 dias teremos as eleições municipais no Brasil. Será que as pesquisas terão uma forte influência nos resultados como tiveram nas eleições passadas? O que faz alguém escolher um candidato? Como você escolhe seu candidato?

Desde 2014 as fake news e os algoritmos das mídias sociais tem um papel relevante nessa escolha dos candidatos. A questão principal é que as pessoas acreditam que o efeito indutivo na escolha é… só nos outros. Portanto, sendo assim, o voto de ninguém é influenciado por essas falcatruas. Só que não! Para quem assistiu o documentário “O Dilema das Redes”, não precisa falar mais nada. Para quem ainda não viu: veja urgente!

Se o resultado das eleições podem ser manipulados a favor de quem tem maior recurso e poder… para que mesmo servem as eleições? Ou, para quem mesmo servem as eleições? Com certeza, nesse formato, não servem a democracia. 

Como escrevi na carta de primeiro de abril: “A política dos políticos ainda sobreviverá mais algumas primaveras enquanto houver a crença de que o sistema eleitoral tem alguma coisa a ver com a democracia. A política vai migrar dos políticos para a sociedade civil. E as políticas públicas serão decididas pontualmente através da participação dos interessados devidamente qualificados. Em pouco tempo os políticos serão substituídos por uma nova geração de políticos conectados com a sociedade civil.” Espero que as eleições municipais de 2020 tragam ventos de mudança para o quadro político brasileiro. Quem sabe uma eleição tão inusitada como essa, possa causar uma disrupção no atual sistema de manipulação dos eleitores e apresentar resultados (positivamente) inesperados. Estou otimista demais?

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 O mês de outubro reforçou ainda mais a ideia de que a pandemia está ajudando a ressignificarmos praticamente tudo. Já caminhávamos numa crise civilizatória onde a economia, educação, medicina, ecologia, política e até mesmo a religião estavam (e estão) nos levando para a destruição do que conhecemos hoje como sociedade humana. Então… como fazer? Ninguém sabe as respostas ainda. Um olhar sistêmico e um desprendimento às nossas crenças atuais ajudam muito. Entre essas crenças estão os nossos preconceitos e os pré-conceitos que precisaríamos suspendê-los temporariamente até conseguirmos rever… tudo! A complexidade exige que ao mexer em qualquer ponto, o todo é afetado. Se soubermos – de verdade – que somos interdependentes como humanos, como seres vivos, como habitantes desse planeta será muito, muito mais fácil.  

Outubro também reforçou a fraude do sistema educacional, está cada vez mais difícil acreditar nele. O formato de aulas virtuais está fazendo alunos, professores e pais se perguntarem o que querem da Educação, o que querem da Aprendizagem. Na grande maioria das escolas… não está rolando! Não está razoável para ninguém. Chegou a hora de parar com isso e, juntos, com transparência, buscar uma nova educação. Talvez até já tenha passado da hora.  

A pandemia nos levou para um contato mais íntimo com o “Virtual”. Num primeiro momento, quase todos acreditam saber o que significa a palavra virtual. Vamos conferir? Descreva, com suas palavras, o que seja virtual! Faça esse esforço! O que é virtual?

Dê um tempinho antes de ir para a próxima frase… vai ajudar no entendimento.

Quando faço essa pergunta num grupo de aprendizagem, quase sempre recebo respostas bem diferentes, onde o mais importante não é o resultado e sim a percepção da dificuldade em definir uma coisa aparentemente simples.

Algumas respostas recorrentes:

– É o mesmo que digital.

– É algo que é, mas ao mesmo tempo não é.

– É quando se substitui algo real por uma coisa que não é real.

– É um ambiente que imita a realidade

– É algo que não existe na realidade

– Substitui a realidade, mas não perde a essência

– Permite expandir os limites de tempo e espaço sem riscos

… e por aí vai!

Percebam que não tem resposta errada, ao mesmo tempo é difícil buscar uma definição clara.

Vou começar pela etimologia da palavra virtual. Ela vem do latim medieval Virtuale e do latim Virtus que significa: Virtude, Força ou Potência. Adoro essa definição! O virtual não é uma mera transposição do presencial para o online. Trata-se de uma nova possibilidade, que se bem aproveitada, terá uma potência incrível. Não veio para substituir e sim para agregar.   

Quero insistir na virtude, força e potência do virtual porque na nossa linguagem ainda há resquícios de que o virtual não é real. Tanto é, que o antônimo de “virtual” é “real”.

Vou trazer um exemplo de algo bem virtual que usamos no dia a dia há muitos anos sem nos dar conta, em momento algum, de que não seja real ou verdadeiro. O dinheiro! Sim, o dinheiro é completamente virtual e no entanto interfere fortemente em nossas vidas. Ele era uma garantia, em papel, de seu valor em ouro (nem isso é mais). O ouro era guardado num banco e emitiam certificados que poderiam ser trocados de volta pelo ouro em qualquer outro banco. Depois criaram o papel moeda que já não identificavam o portador e hoje em dia mal usamos o papel. Isso sem falar na chegada das criptomoedas. Vamos valorizar o virtual e não denegrir sua imagem por causa de projetos mal encaminhados nessa pandemia.

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Escrever esse livro tem sido uma experiência de autoconhecimento. A cada página revejo o desafio entre o que quero passar e como posso fazer para transmitir de uma forma simples e ao mesmo tempo eficaz. Onde minhas verdades, são apenas as minhas verdades. Você, caro leitor, terá que negociar com suas próprias verdades e decidir se está disposto a abrir mão, mesmo que temporariamente, das suas verdades para conhecer outras. Sei que não deveria usar a palavra “verdade” tantas vezes na mesma frase…

“Toda verdade passa por três estágios.
  No primeiro, ela é ridicularizada.
  No segundo, é rejeitada com violência.
  No terceiro, é aceita como evidente por si própria”

Arthur Schopenhauer

Em dezembro apresentarei um menu com algumas delas para que você se pergunte em que estágio está com cada uma delas. Vai ser divertido!

Primeiro de Outubro

Esse texto faz parte do livro que estou escrevendo. Em cada primeiro dia do mês escrevo uma carta que estará publicada no capítulo de uma retrospectiva de 2020. Segue a carta:

2020… o ano em que a Terra parou!

Onde estamos? Num novo normal? Havia algum normal? Estamos então num novo anormal? Estamos indo para um novo anormal normal?

Se a essa altura do campeonato tiver alguém ainda achando que é uma crise passageira e que as coisas voltarão a ser como eram… talvez estejamos todos sofrendo de “Normose”.

Se você não está familiarizado com o termo Normose, sugiro que pare tudo que está fazendo e mergulhe por um instante num conceito maravilhoso para esse nosso tempo de pandemia.

Jean-Yves Leloup, Pierre Weil e Roberto Crema Normose definiram que normose é “um conjunto de hábitos considerados normais pelo consenso social que, na realidade, são patogênicos e nos levam à infelicidade, à doença e à perda de sentido na vida”. Escreveram em 2003 o livro “Normose: A patologia da normalidade”, a sensação de normose ocorre quando o contexto social que nos envolve se caracteriza por um desequilíbrio crônico e predominante. Parece familiar?

Assista, assim que puder, o TED com o Roberto Crema nos iluminando com essa patologia que sempre nos afligiu, mas que agora está a flor da pele: http://bit.ly/TEDnormose

No filme o Dia que a Terra parou, um alienígena vem para o nosso planeta nos alertar sobre o que o nosso comportamento está causando a nossa interdependência planetária. Parece que a ficção virou realidade! Essa civilização está numa crise existencial como nunca teve.

O Mundo em Chamas

Esse é um texto (WORLD on FIRE) escrito por Charles Eisenstein, disponível no original (em inglês) no https://charleseisenstein.org/essays/world-on-fire/

A foto que ilustra o artigo foi gentilmente cedida pelo fotógrafo Mario Friedlander (instagram.com/mariofriedlander)

 

O MUNDO EM CHAMAS 

por Charles Eisenstein

O Pantanal brasileiro é a maior área úmida tropical do mundo, cobrindo uma área quase do tamanho da Grã-Bretanha. Só que hoje, não está tão molhada. Após um verão de seca, estão ocorrendo incêndios catastróficos que já devastaram 2,4 milhões de hectares de terra este ano. (Isso é mais do que queimou na Califórnia, Oregon e Washington juntos.) Sua preciosa vida selvagem, incluindo a maior população de onças-pintadas do mundo, está sofrendo danos irreparáveis.

 

O que está causando a destruição? As causas mais aparentes parecem bem diferentes do que está causando os incêndios na Califórnia, mas se nos aprofundarmos através de várias camadas o suficiente, chegaremos à mesma causa profunda e, portanto, à mesma solução profunda.

 

Desde 2019, incêndios catastróficos têm atingido a Amazônia, a bacia do Congo, Austrália, Sibéria, Argentina e inúmeros outros lugares. Enquanto alguns na Direita política negavam que algo incomum estivesse acontecendo, hoje todo o espectro político está de acordo em que algo está terrivelmente errado. Nos Estados Unidos, a Direita oferece explicações de candidato como manejo florestal deficiente, enquanto os políticos democratas enfatizam a mudança climática. O que os dois concordam é que o estado atual das coisas é anormal, inaceitável e requer ação. Isso, pelo menos, é um progresso.

 

Na verdade, ambos os lados estão abordando a mesma verdade por direções diferentes. Deixe-me começar com o manejo florestal, passar pelas mudanças climáticas através da porta dos fundos, visitar o comportamento flagrantemente criminoso por trás dos incêndios na Amazônia e no Pantanal e finalmente chegar ao cerne da questão.

 

Gestão florestal

 

Artigos da Direita sobre os incêndios nos EUA geralmente invocam a frase: “As florestas devem ser mantidas de maneira adequada para evitar incêndios catastróficos”. Frequentemente, a conclusão deles é que regulamentações governamentais pesadas impediram a indústria madeireira de abater árvores mortas e manejar as florestas com sabedoria. O problema, claro, é que, sujeitas às forças do mercado, as empresas madeireiras historicamente e até o presente manejaram as florestas de acordo com o lucro, não com a sabedoria. Outro problema é que, mesmo que superficialmente, não pode ser correto afirmar que as florestas exijam manejo humano. Há mais de doze ou quinze mil anos atrás, não havia nenhum humano na Califórnia, mas a natureza cuidava de si mesma muito bem.

 

A história não é tão simples – as florestas, então, como agora, exigiam manejo. Em tempos pré-humanos o manejo era realizado por outras espécies como, na América do Norte, castores, salmão e principalmente a megafauna. O continente fervilhava de herbívoros gigantes, como mamutes e mastodontes, que devoravam árvores que brotavam, arrancavam cascas, pisoteavam a vegetação e derrubavam árvores como tratores. Esses “engenheiros de ecossistema” criaram paisagens em mosaico de floresta e savana e tornaram as florestas menos densas. Após seu desaparecimento logo chegaram os humanos, os humanos os substituíram como engenheiros do ecossistema, usando queimadas controladas e muitos outros métodos para manter paisagens produtivas, resilientes e biodiversas que eram resistentes a incêndios catastróficos. Como Kat Anderson descreve em Tending the Wild (Cuidando da Natureza):

 

                       “Por meio de corte, poda, gradagem, semeadura, capina, queima, escavação, desbaste e colheita seletiva, eles incentivaram as características desejadas das plantas individuais, aumentaram as populações de plantas úteis e alteraram as estruturas e composições das comunidades de plantas. A queima regular de muitos tipos de vegetação em todo o espaço local criou um habitat melhor para a caça, eliminou os arbustos, minimizou o potencial de incêndios catastróficos e incentivou a diversidade de culturas alimentares. Essas práticas de colheita e manejo, em geral, permitiram a colheita sustentável de plantas ao longo dos séculos e possivelmente milhares de anos.”

 

Um cenário semelhante ocorreu na Austrália dezenas de milhares de anos antes: a colonização humana seguida pelo desaparecimento da megafauna, seguida por queimadas controladas primorosamente desenvolvidas e outras técnicas de gestão de ecossistemas. Em ambos os continentes, mesmo quando a megafauna desapareceu, outros engenheiros de ecossistema floresceram: pássaros migratórios, predadores de vértice, castores, insetos e assim por diante.

 

Nos últimos séculos, as florestas e outros ecossistemas passaram a ser manejados não para a saúde, mas para o lucro. Hoje vemos sinais de uma reviravolta à medida que os formuladores de políticas começam a reconhecer a necessidade de reduzir os materiais combustíveis nas florestas; às vezes até consultam povos tradicionais que se lembram dos velhos hábitos. Muitas vezes, porém, os motivos de lucro pervertem as práticas de desbaste da floresta, levando-as a produzir madeira para venda em vez da saúde da floresta.

 

Além disso, os combustíveis florestais é um foco muito estreito na compreensão dos incêndios catastróficos de hoje. Um século ou mais de desmatamento e outros abusos de terra reduziram a resistência das florestas aos incêndios e criaram condições de seca que as agravam. É comum declarar que as mudanças climáticas estão prejudicando as florestas, mas pode ser mais correto dizer que os danos às florestas causam as mudanças climáticas, que prejudicam ainda mais as florestas.

 

O corte raso da floresta afeta o clima muito além da oxidação do carbono armazenado. Sem folhas, serapilheira (material orgânico em decomposição) e raízes para protegê-la, a camada superficial do solo é lavada e a água da chuva não tem chance de penetrar na terra. As inundações resultantes são inevitavelmente seguidas de secas. Por quê? Uma floresta saudável transpira água subterrânea, mantendo as condições de umidade e prolongando a estação das chuvas. Globalmente, pelo menos 40% das chuvas se originam da transpiração das plantas; na Amazônia é de 70%.

 

As florestas também contribuem para o resfriamento local, regional e global, à medida que a água transpirada evapora e sobe para a atmosfera. Seu calor latente é liberado quando ela se condensa mais acima, parte da qual irradia para o espaço. Além disso, as florestas saudáveis ​​emitem compostos e partículas de nucleação de gelo, aumentando a cobertura de nuvens, criando chuva e refletindo a luz solar de volta ao espaço. Florestas nativas desempenham essas funções especialmente bem (apenas 1% das florestas nativas da Califórnia permanecem). Aqui está uma passagem, ligeiramente modificada, de meu livro sobre o clima:

 

O Quênia, que perdeu a maior parte de sua cobertura florestal na última metade do século, também está sofrendo com secas persistentes e temperaturas mais altas. Regiões do Quênia, onde a temperatura diurna na floresta pode ser de 19 graus, registram temperaturas nas proximidades, onde recentemente limparam terras agrícolas, de 50 graus.… Em Sumatra, as terras desmatadas para plantações de óleo de palma foram

 

10 graus mais quentes do que a floresta tropical próxima e permaneceu mais quente mesmo quando as palmeiras amadureceram.

 

Uma floresta real e viva interage com o ciclo da água de maneiras complexas que a ciência está apenas começando a entender. (Muito do que se segue é proveniente do fantástico livro Global Deforestation, de Runyan & D’Odorico.) Uma maneira é convertendo umidade em chuva. O vapor de água na atmosfera não necessariamente cai como chuva, mas pode persistir como neblina no que é conhecido como “seca úmida” (humid drought). Uma razão para a formação de neblina é uma superabundância de pequenos núcleos de condensação, o que impede que as gotas de água se tornem grandes o suficiente para cair como chuva. Poluentes, fumaça de incêndios florestais e poeira de solo desidratado estão entre os culpados pela formação de névoa. Sobre as florestas, os núcleos de condensação são principalmente biogênicos, incluindo detritos de plantas, bactérias, esporos de fungos e aerossóis orgânicos secundários originados como compostos orgânicos voláteis emitidos pela vegetação. Isso ajuda na formação de nuvens carregadas de precipitação em vez de neblina, e permite a formação de nuvens em temperaturas mais altas do que os núcleos abióticos. Pesquisas recentes confirmam o aumento da cobertura de nuvens sobre e perto das florestas. Essas nuvens mais baixas e espessas têm um efeito de resfriamento maior do que as nuvens de grande altitude. De acordo com um pesquisador, um aumento de 1% no albedo (coeficiente de reflexão) das nuvens geradas pela floresta compensaria todo o aquecimento das emissões antropogênicas de gases de efeito estufa.

 

As florestas saudáveis ​​não apenas reciclam a chuva, mas também a retiram do oceano por meio do mecanismo da bomba biótica. O vapor de água evapotranspirado se condensa para criar zonas de baixa pressão, que puxam um novo ar carregado de umidade dos oceanos e afetam os padrões globais de vento e, portanto, os padrões de chuva. Quando as florestas são danificadas ou destruídas, a fisiologia da Terra fica comprometida.

 

No oeste dos Estados Unidos, o represamento de rios e o quase extermínio de castores também causou danos incalculáveis ​​às florestas e ao clima. As barragens evitam inundações sazonais, alteram a distribuição de sedimentos, levam à erosão a jusante e impedem os peixes migratórios que transportam nutrientes marinhos para a floresta e desempenham um papel fundamental nas cadeias alimentares. Os castores criam pântanos, aumentam a biodiversidade e reduzem a velocidade da água para mitigar inundações e sustentar os lençóis freáticos. Na verdade, a extinção de qualquer espécie enfraquecerá toda a floresta (ou qualquer ecossistema), assim como sua saúde sofreria se você destruísse um tipo de tecido ou célula. Após séculos de destruição do habitat ao redor do mundo, é incrível que a Terra ainda esteja se agarrando à saúde.

 

Criminalidade e Ignorância

 

Meu amigo brasileiro Alan Dubner me descreveu a “cascata de criminalidade” que está destruindo a Amazônia. Primeiro vêm os madeireiros, usando métodos sofisticados para escapar da aplicação do governo às proibições de madeira. O que sobrou seca facilmente e pode ser queimado pelos criadores de gado, que pastam seu gado no que está tentando crescer novamente. Em seguida, vêm as plantações de soja, exaurindo qualquer fertilidade que resta no solo. O que resta é basicamente um deserto, inútil para ninguém, exceto as empresas de mineração que acabam com a ruína.

 

Quanto mais da Amazônia é destruída, menos chuva ela pode puxar do oceano Atlântico e mais vulnerável a incêndios. O declínio das chuvas afeta o resto do Brasil, desde o Pantanal ao sul. Na verdade, o poder da bomba biótica amazônica é tal que sua desestabilização altera os padrões climáticos em todo o mundo.

 

O Pantanal é afetado não apenas por mudanças nos padrões climáticos, mas também por grandes barragens hidrelétricas e invasão progressiva de pecuaristas. As grandes zonas úmidas do Pantanal tornam-se altamente inflamáveis ​​quando secam, dando a proprietários de terras e especuladores inescrupulosos a oportunidade de provocar incêndios. A renomada ambientalista brasileira Marina Silva me escreveu o seguinte comentário: “Tragédia orquestrada. É o que está acontecendo no Pantanal aqui no Brasil. Desmonte das políticas ambientais, corte de recursos para combater desmatamentos e queimadas, tudo isso em uma ação de criminosos, o resultado não podia ser outro.”

“O que precisa ficar claro é que as queimadas no Pantanal e na Amazônia não são acidentais. Fazem parte de um projeto e de uma visão de mundo que despreza o meio ambiente, com os quais o governo compactua e incentiva. Não importa se é o território com maior diversidade de mamíferos do mundo, a maior área úmida do planeta e com maior presença de onças-pintadas.”

Vamos dar um passo para trás por um momento. A criminalidade de que Marina Silva fala é especialmente danosa por causa das condições trazidas por outra criminalidade em outras áreas, como a Amazônia. No entanto, não podemos culpar inteiramente a criminalidade pelos incêndios do mundo. Afinal, a maior parte do desmatamento e degradação florestal é perfeitamente legal. O problema está na mentalidade e nas forças econômicas subjacentes à destruição das florestas, sejam elas criminais, legais ou mesmo inconscientes.

 

A extração ilegal de madeira e queimadas estão no mesmo espectro que os conservadores de “mau manejo florestal” culpam pelos incêndios nos Estados Unidos. Em vários graus, ambos suprimem em vez de participar dos processos naturais. Eles compartilham do padrão de dominação: dominação física construída sobre o rebaixamento conceitual de que florestas vivas são meras coisas. Os conservadores estão, em certo sentido, corretos, exceto que a “má gestão” vai muito além da supressão de incêndios para abranger toda a relação da sociedade moderna com a floresta. Além disso, esse relacionamento ruim gera muitas das condições pelas quais os políticos progressistas culpam as mudanças climáticas. Em certo sentido, eles também estão certos, exceto que a mudança climática abrange muito mais do que o aquecimento global induzido pelos gases de efeito estufa, e é tanto uma consequência quanto uma causa da degradação florestal.

 

Reverência e Relacionamento

Embora engenheiros, ecologistas e especialmente povos indígenas possam oferecer técnicas para administrar adequadamente as florestas e restaurá-las à sua resiliência, a transição para um mundo curado (healed) requer algo muito mais profundo do que melhores técnicas. Mais importante é aprender a incorporar a fonte de onde surgem as práticas de gestão de terras indígenas. Essa fonte é uma maneira de ver, conceber e de se relacionar com a natureza. É também uma forma de nos compreendermos: quem somos e porque estamos aqui.

 

Fundamentalmente, a fonte de sabedoria do manejo florestal é ver e conhecer a natureza como um ser, não uma coisa. É o melhor que posso dizer, mas não é bom o suficiente. As próprias palavras me induzem ao erro. A natureza não é algo separado de nós mesmos, e nem mesmo “coisas” são apenas coisas. Deixe-me dizer então que as culturas tradicionais e indígenas vivem em um mundo onde o ser está em toda parte e em tudo, e os humanos não são mais nem menos sagrados do que as árvores, montanhas, água ou formigas.

 

No nível mais óbvio, a visão da natureza como coisa facilita muito o corte raso, mineração, extração e lucro, assim como a desumanização de outras pessoas permite sua exploração e escravidão. É o mesmo modelo mental básico. Mas também há outro problema: a mentalidade da natureza-como-coisa nos impede de entrar na intimidade do relacionamento que é necessário para cuidar, curar e co-criar com ela para benefício mútuo. É como a diferença entre um médico que o trata impessoalmente, como um “caso”, e aquele que o vê como um ser humano pleno.

 

No mês passado, o estado da Califórnia se comprometeu com um programa de desbaste florestal de 20 anos que visa reduzir incêndios por meio de derrubada de mato, extração de madeira e queimadas prescritas. Este programa está repleto de possíveis consequências não intencionais. Quando entendemos uma floresta como um organismo, um ser, em vez de um objeto de engenharia, reconhecemos conceitos de engenharia como a redução de combustíveis florestais como, na melhor das hipóteses, um primeiro passo. Afinal, uma floresta saudável requer matéria vegetal em decomposição para nutrir fungos, invertebrados etc. que são elementos cruciais da ecologia florestal. Como sabemos quanto mato (brush) limpar e quantas toras remover? Só podemos aprender isso através da observação atenta e de um longo relacionamento. Aqui, a experiência dos povos nativos (indígenas) locais pode ser inestimável, pois eles acumularam esse conhecimento ao longo de inúmeras gerações. Aprender com os erros inevitáveis ​​que ocorrerão no programa de desbaste da floresta exigirá humildade, o tipo que surge quando se sabe que está se relacionando com um ser vivo complexo. Caso contrário, tropeçamos de um erro para o outro, assim como quando, no esforço de aumentar o sequestro de carbono, plantamos árvores ecológicamente e culturalmente inadequadas que acabam morrendo algumas décadas depois, deixando as condições ainda piores do que antes.

 

Outra palavra para a atitude que citei como a fonte da qual surgem as práticas de gestão de terras indígenas é “reverência”. Reverenciar algo é o oposto de reduzi-lo a uma coisa. Pessoas modernas e educadas viveram muito em uma matriz ideológica que diz que a natureza, no fundo, é meramente um turbilhão de partículas genéricas sacudindo de acordo com forças matemáticas. O que há para reverenciar? Diz que propósito, inteligência e consciência subsistem apenas nos seres humanos. O incêndio do mundo nos chama a despertar dessa ilusão.

 

Pela atitude de reverência, vemos coisas invisíveis aos olhos do engenheiro. Fazemos perguntas que o utilitarista nunca faz. Paradoxalmente, no final, o conhecimento assim obtido serão mais úteis – não apenas para a floresta, mas para nós mesmos – do que qualquer coisa que poderíamos realizar com a mentalidade exploradora.

 

Na verdade, não estamos separados da natureza. O que fazemos ao outro, em última análise, fazemos a nós mesmos. Quando as florestas estão doentes, estamos doentes. Quando elas queimam, mesmo que escapemos das chamas, algo queima dentro de nós também. O clima social reflete o clima geológico. Podemos não reconhecer essa verdade como os indígenas reconhecem, mas somos a terra. Não é óbvio, olhando para o cenário político de hoje, que um incêndio está fora de controle?

 

Não consigo estabelecer facilmente uma conexão causal aqui, mas parece significativo que incêndios florestais incontidos sejam contemporâneos de retórica inflamada, debates acalorados, temperamentos inflamados, ódio ardente, desconfiança fervilhante e ressentimento latente. Assim como as florestas secas e carregadas de material combustível queimaram fora de controle com uma simples faísca, assim também nossas cidades queimaram quando a centelha de assassinatos da polícia atingiu o combustível de gerações de racismo; décadas de decadência econômica e meses de confinamento em Covid. Nosso ecossistema social está tão danificado e esgotado quanto as florestas que são tão sujeitas ao fogo. A matriz de relações complexas que chamamos de comunidade desabou em grande parte em relações simplificadas com instituições impessoais, mediadas por dinheiro e tecnologia. As redes sociais podem dar a aparência de comunidade, mas carecem da interdependência que marca uma comunidade real (ou ecossistema). Podemos ver agora como essa sociedade é frágil – ou inflamável.

 

Não serei ousado a ponto de dizer que abordar nossa separação social apagará os incêndios. No entanto, pode-se ver como o projeto de cura da terra por meio da reverência e do relacionamento é congruente com o projeto de cura social, que também depende da restauração da reverência e do relacionamento.

 

A Porta de Entrada Chamada Encantamento (The Doorway Called Enchantment)

 

Eu moro no nordeste da terra que as pessoas chamam de Estados Unidos. Aqui, o fogo ainda não é uma grande ameaça. Algumas semanas atrás, eu estava caminhando com meu irmão na floresta atrás de sua fazenda na Pensilvânia, onde o terreno inclinado dá lugar à encosta da montanha. Cruzamos um riacho, um filete nu em alguns lugares e seco em outros. John me contou que esteve aqui com um veterano que disse que, em sua juventude, este riacho era tão profundo e forte, mesmo em agosto, que havia poucos lugares onde se podia atravessá-lo. O que aconteceu com esse ser, esse riacho? Alguns moradores dizem que é porque muitos poços foram cavados, baixando os lençóis freáticos e secando as nascentes que alimentam os riachos. Outros dizem que é por causa do corte repetido da montanha, que remonta à época colonial. Ou talvez, pensei, seja novamente um resultado demorado da cascata de mudanças que se seguiram ao extermínio de lobos, pumas e castores. Todas essas atividades são um insulto à terra e à água, alheios à reverência.

 

Em última análise, para parar os incêndios e entrar no caminho da cura do mundo, devemos passar da dominação e subjugação à reverência e respeito. Às vezes, isso significa assumir o papel de protetora de seres vulneráveis ​​e preciosos, como Marina Silva está fazendo no Brasil. (Aqui está uma organização com a qual ela trabalha, junto com outras que mencionei em meu artigo de 2019 sobre os incêndios na Amazônia.) Às vezes, significa assumir o papel de nutridor ou curador, como as pessoas reintroduzindo castores, praticando agricultura regenerativa e construindo paisagens de retenção de água. Para alguém no mundo corporativo ou financeiro, a reverência pode levá-lo a escolher a vida ao invés do lucro em um momento em que é necessário um pouco de coragem para fazer isso. Essa coragem é uma versão diluída da coragem de ativistas indígenas sul-americanos que correm o risco de serem torturados e assassinados por proprietários de terras, madeireiras, mineradoras e seus paramilitares, porque coloca algo mais acima da maximização do interesse pessoal. É, portanto, um importante ato de solidariedade.

 

A reverência traz coragem. A reverência traz conhecimento. A reverência traz habilidade. A reverência traz cura. É o fulcro da grande virada da civilização em direção ao reencontro com a natureza. Hoje a palavra tem conotações religiosas, mas esse não é o tipo de reverência que adora um ídolo. É a reverência do amante que olha nos olhos da amada e vê o infinito.

 

Se a reverência traz todas essas coisas, então o que traz reverência? Não basta apenas exortar as pessoas a serem mais reverentes. A porta de entrada para a reverência é o encantamento. Há alguns dias, estive com meu filho Cary, de sete anos, no último lago costeiro não desenvolvido de Rhode Island observando tartarugas. Sentimos o que é ser aquelas tartarugas. Mal podíamos parar de observá-las. Naquele momento, o pensamento de que iríamos prejudicá-las por qualquer coisa menor do que um propósito sagrado era horrível e absurdo. Nós as conhecíamos como preciosas em si mesmas, e não para qualquer uso para nós. Poucas pessoas, sentindo aquele momento, poderiam escapar daquele encantamento. No entanto, todos os dias, participamos de sistemas que tratam as tartarugas e muito mais como recursos a serem explorados, ou que as transformam em danos colaterais em outra exploração. Não podemos evitar essa participação, pois vivemos nesse sistema, e esse sistema vive em nós. Cada vez mais, pessoas como nós, não se sentem mais à vontade com esse pensamento. Ele não pode acomodar facilmente nossa reverência, nosso encantamento e nosso verdadeiro propósito de servir à vida.

 

Executivos de mineradoras ou membros de esquadrões da morte a serviço de fazendeiros podem estar muito longe da porta do encantamento. O princípio da reverência gerada pelo encantamento não substitui a ação legal, a ação direta não violenta e assim por diante. No entanto, um planeta curado não resultará de uma sucessão de ações desesperadas de contenção. Precisamos nos basear na experiência direta da Terra, obviamente tão preciosa quanto as tartarugas foram para Cary; conhecê-la como ser e como organismo, e precisamos difundir esse conhecimento. Então, teremos a clareza, a coragem, a habilidade e, o mais importante, os aliados em lugares improváveis, para defender suas partes vulneráveis, para preservar e fortalecer seus órgãos e para fazer a transição de sistemas construídos na mitologia da Terra-como -coisa.

 

Charles Eisenstein – Setembro de 2020

 

(traduzido por Alan Dubner)

Primeiro de Setembro

Estou publicando mais um texto que pertence ao livro que estou escrevendo. Comecei escrevendo uma carta no dia primeiro de janeiro de 2020 e a cada primeiro dia do mês, escrevo outra. Resolvi publicar a de primeiro de abril e venho repetindo a cada primeiro do mês. Essas cartas estarão no capítulo de uma retrospectiva. Segue a carta:

Bom dia setembro! Bom dia primavera! Bom dia internacional da Paz!

Estamos num momento Fênix de mundo? Um mundo está morrendo e um outro está renascendo de suas cinzas? A Fênix* é um pássaro mitológico que depois de um longo tempo de vida percebe que é a hora de partir, constrói uma pira e canta enquanto arde em fogo. Das suas cinzas nasce uma nova Fênix.

Nova Medicina – Na área da saúde estamos vivendo a quarta crise dos efeitos da Covid19. A primeira foi a constatação dos efeitos que o novo Coronavírus causava, nos diferentes níveis de adoecimento e letalidade. A segunda explicitou o despreparo do sistema de saúde para atender a esse tipo de cenário da pandemia. A terceira crise foi na disrupção dos tratamentos de enfermidades crônicas ou novas intercorrências que não conseguiram ser atendidas adequadamente frente a ocupação integral, do sistema de saúde, no combate a pandemia. A quarta crise (ou onda), que se soma as três anteriores que ainda estão em andamento, está se manifestando na esfera da saúde mental. Questões psíquicas, transtornos mentais, depressão, alcoolismo, dependência de psicoativos, suicídios e outros problemas graves que a pandemia acentuou. Essa situação está levando ao colapso do sistema de saúde mundial. Uma nova forma de olhar a medicina emerge desse caos. É uma emergência (de emergir) desses sistemas complexos (teoria do caos). Um problema sistêmico que não pode ser resolvido com as crenças e valores que criaram esse problema. Nas palavras de Albert Einstein “Nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo estado de consciência que o criou.”

A Nova Medicina vai focar na saúde ao invés da doença; vai procurar entender o todo ao invés da especialidade; vai aceitar olhar para todas as formas de medicina ao invés de criar barreiras de proteção para a sua; vai interferir diretamente na qualidade da nutrição ao invés de atender suas consequências negativas; vai se manifestar nas políticas públicas que gerem qualidade do estilo de vida ao invés de transferir essa responsabilidade aos políticos;  vai incentivar mais a busca de remédios naturais do que a dos laboratórios; vai ouvir mais do que falar…

A Nova Medicina conta com a ciência, tecnologia, natureza e cultura para se aprimorar constantemente. Os avanços no desenvolvimento da inteligência artificial, da análise do DNA, das possibilidades da impressão 3D, da neurociência, da sabedoria dos povos nativos, da sabedoria dos povos milenares, da biologia da crença, biomimetismo e tantos outros avanços.

Os terapeutas da nova medicina terão que se reinventar e acoplarem os princípios e valores que irão se consolidar na terceira década do século XXI. Quem não começar já… vai perder o bonde. Quem não reconhecer sua ignorância aos novos tempos terá muita dificuldade de aprender e apreender essa nova faceta das terapias em geral. Quanto aos jovens que estão entrando nessa área e nem sabem o que é um “bonde”, as notícias são boas. Ao contrário do que parece o campo profissional vai crescer enormemente, não porque haverá mais doentes e sim porque a busca por cuidar da saúde vai crescer muito. A vantagem dos jovens é que não precisarão descontruir a colonização secular. Estão desenhando o futuro enquanto exercem o presente. Em pouco tempo… acreditem… os jovens ensinarão os profissionais de saúde mais experientes a entender e a se locomover nessa nova medicina. Farão isso ao mesmo tempo que apreciarão e honrarão os ensinamentos dos mais experientes. Preparem-se para um ambiente bem mais saudável no sistema de saúde. Por enquanto parece até impossível. Uma jovem Fênix renascerá das cinzas!

 

Nova Educação – A essa altura as escolas já estão percebendo que o atual modelo de negócio está fracassando. Enquanto algumas continuam fingindo que estão ensinando outras procuram encontrar uma solução de curto prazo para o problema. Na verdade, os sistemas de aprendizagem terão que pensar no médio e longo prazo para realmente sobreviverem. É uma situação muito difícil para todos os envolvidos. Ninguém está bem nesse momento e as aparentes soluções, nada mais são do que percepções de uma realidade que ainda não conhecemos. Quanto mais cedo se renderem a absoluta necessidade de enfrentarem o desenho de uma nova educação, mais cedo a saúde de todos vai melhorar. Essa é uma tarefa em que todos precisarão participar.

Quando escuto dizerem as duas palavras macabras, “ano perdido” me arrepio até a alma com tamanha falta de visão em educação (me desculpem os que acreditam nisso). Como assim ano perdido? Alguém consegue acreditar que quem viveu em 2020 não aprendeu mais, comparativamente, do que em qualquer dos anos anteriores dessa década? Daqui a 10 anos, qualquer que seja a idade escolar de hoje, você acredita que o estudante aprendeu mais em 2020 ou em 2019? Em 2020 ou em qualquer dos anos de 2011 em diante? A resposta é tão óbvia que precisaria alterar completamente as métricas do que significa aprender, para achar que o ano foi perdido. Podemos, sim, afirmar que foi muito negativo em vários aspectos e até mesmo perigoso quanto a segurança alimentar, violência doméstica e tantos outros problemas que realmente estão acontecendo. O aumento do degrau social de acesso à educação, a situação insalubre dos professores, a incerteza de como será o mês seguinte e tantos outros problemas que estão ocorrendo não fazem de 2020, nem de longe, um ano perdido!

O sistema de educação brasileiro já estava quebrado antes da pandemia. O Brasil ocupa um lugar vergonhoso no ranking mundial. E por incrível que isso pareça pode ser uma grande vantagem para o nosso país. O fato de ainda estarmos no século XIX quanto a educação e tudo que estamos vivendo esse ano desmorona o sistema todo… podemos migrar diretamente para o século XXI. Fizemos isso com a tecnologia da informação no final dos anos 80. Estávamos tão atrasados em termos tecnológicos que quando resolvemos finalmente entrar, já pulamos diretamente para uma etapa mais inovadora. Enquanto os EUA e a Europa estavam se readaptando dos sistemas antigos para os novos, nós fomos diretos para os novos. Durante muitos anos lideramos mundialmente os sistemas de informação bancários, financeiros, agrícolas e outros. Não tivemos que pagar os custos de uma longa jornada de aprendizagem e amortizar o capital investido nesses primórdios de TI. O mesmo pode acontecer com a educação. Podemos ir direto para uma nova educação criar sistemas de aprendizagem que servirão de modelo para muitos países. Sim podemos nos tornar um modelo para o mundo. Resta saber se vamos continuar nessa toada onde a educação não tem importância para o país.

 

Nova Economia – O que parecia distante no tempo está cada vez mais atual. As diversas versões de uma nova economia estão se mostrando bem fortes nesse período onde a economia tradicional está perdendo tempo e espaço.  Conceitos de economias como a Economia Circular, Economia Criativa, Economia Verde, Economia Social, Economia Compartilhada, Economia Gift e muitas outras que estão fartamente explicadas no livro, estão ganhando terreno no mundo inteiro.

 

Nova Política – Quando teremos um sistema político no Brasil que seja justo e decente? Será que já tivemos? Fico realmente impressionado que praticamente todo mundo acredita que o sistema eleitoral é sinônimo de democracia. Será que poderíamos refletir na ideia de que ao contrário, o atual sistema eleitoral brasileiro nos distancia da democracia? Será uma heresia?

 

Vou ficar por aqui e deixar um vídeo (gravado na semana passada) bem ilustrativo dessa minha carta de hoje. Trata-se de uma palestra de Sua Santidade o Dalai Lama sobre A Necessidade de Ética Secular no Sistema Educacional Moderno. Imperdível. Ainda sem legendas em português. https://youtu.be/DX68mxp9Jw0

 

Fênix *

O mito da Fênix é muito antigo. Deve ter milhares de anos de existência. Segue a descrição do poeta persa sufista Farid al-Din Attar, no livro A Conferência dos Pássaros, de 1177:

“Na Índia vive um pássaro que é único: a encantadora fênix tem um bico extraordinariamente longo e muito duro, perfurado com uma centena de orifícios, como uma flauta. Não tem fêmea, vive isolada e seu reinado é absoluto. Cada abertura em seu bico produz um som diferente, e cada um desses sons revela um segredo particular, sutil e profundo.

Quando ela faz ouvir essas notas plangentes, os pássaros e os peixes agitam-se, as bestas mais ferozes entram em êxtase; depois todos silenciam. Foi desse canto que um sábio aprendeu a ciência da música. A fênix vive cerca de mil anos e conhece de antemão a hora de sua morte. Quando ela sente aproximar-se o momento de retirar o seu coração do mundo, e todos os indícios lhe confirmam que deve partir, constrói uma pira reunindo ao redor de si lenha e folhas de palmeira.

Em meio a essas folhas entoa tristes melodias, e cada nota lamentosa que emite é uma evidência de sua alma imaculada. Enquanto canta, a amarga dor da morte penetra seu íntimo e ela treme como uma folha. Todos os pássaros e animais são atraídos por seu canto, que soa agora como as trombetas do Último Dia; todos aproximam-se para assistir ao espetáculo de sua morte, e, por seu exemplo, cada um deles determina-se a deixar o mundo para trás e resigna-se a morrer. De fato, nesse dia um grande número de animais morre com o coração ensanguentado diante da fênix, por causa da tristeza de que a veem presa.

 É um dia extraordinário: alguns soluçam em simpatia, outros perdem os sentidos, outros ainda morrem ao ouvir seu lamento apaixonado. Quando lhe resta apenas um sopro de vida, a fênix bate suas asas e agita suas plumas, e deste movimento produz-se um fogo que transforma seu estado. Este fogo espalha-se rapidamente para folhagens e madeira, que ardem agradavelmente. Breve, madeira e pássaro tornam-se brasas vivas, e então cinzas. Porém, quando a pira foi consumida e a última centelha se extingue, uma pequena fênix desperta do leito de cinzas.”

Primeiro de Agosto

Estou publicando esse texto que pertence ao livro que estou escrevendo. Comecei escrevendo uma carta no dia primeiro de janeiro e a cada primeiro dia do mês, escrevo outra. Resolvi publicar a de primeiro de abril e venho repetindo a cada primeiro do mês. Essas cartas estarão no capítulo de uma retrospectiva do ano de 2020. Nas primeiras décadas do século XXI, escrevo uma para cada ano e estou escrevendo uma carta para cada uma das últimas cinco décadas do século XX. Segue a carta:

Quando comecei a escrever esse livro em janeiro desse ano, não imaginava que viveríamos o conteúdo do livro. Logo no início escrevo um pequeno texto com o título:

Crise Civilizatória

“A palavra “crise” traz uma conotação negativa, mas na verdade é apenas um momento de decisão onde uma possível mudança é eminente. A etimologia vem do latim crĭsis, que por sua vez vem do grego krisis, onde a palavra era comumente usada para questões de saúde. Na medicina designava o momento decisivo onde separava o paciente em direção a cura ou a morte. Portanto para nosso mútuo entendimento a palavra crise está significando um momento em que nossas escolhas determinarão por quais transformações iremos passar. Nossas percepções dessa realidade vão nos conduzir as decisões individuais e coletivas para o caminho da cura ou da morte.

Quanto a palavra “civilizatória”, o entendimento é mais complexo. É sobre o processo que nos leva a civilização, ou seja, a nos civilizar. A nos tornar cidadãos de uma sociedade civil geograficamente definida, de uma cidade, estado, país, continente e até mesmo de um planeta. Como definir civilização? Seria talvez o conjunto de códigos sociais e culturais definido por uma elite dominante? Ou talvez por um conjunto de regras morais e éticas definidas pelo conjunto dos cidadãos através de sistemas de representação? Muitos o definem, também, como um processo de dominação e controle da natureza pelo homem. Seja como for o importante é perceber que todas as civilizações que existiram antes da nossa, nasceram, tiveram seu apogeu e… morreram! Seria ridículo acreditar que a nossa civilização não vai… morrer!

Onde estão os princípios, crenças e valores que estão levando a nossa civilização a se autodestruir? Como conseguem passar desapercebidos? São percepções equivocadas para o momento atual na economia, educação, política, medicina, ecologia e religião. A combinação dessas miopias nos fazem caminhar para o fim de mais uma civilização. Não se trata de uma mudança ou de uma melhoria e sim de uma completa transformação. Portanto precisamos urgentemente, migrarmos a atual cultura para uma nova economia, uma nova educação, uma nova medicina, uma nova ecologia, uma nova política e até mesmo uma nova religião.

Boa sorte para todos nós!”

Um pouco mais para frente repasso o trecho inicial do texto com o título:

Acreditar no Inacreditável

“Temos a incrível capacidade de acreditar no inacreditável. E pior, acreditar que estamos vendo a verdade e de que nossos pressupostos estão corretos. E para piorar ainda mais, acreditamos que os outros não estão vendo a realidade como ela é. Poderia ser até engraçado se não fosse trágico.

Joseph Campbell, brilhantemente, dizia que “Mitologia” é a religião dos outros. Ou seja, o que você acredita, percebe e valoriza é, na maior parte das vezes, o certo… é a realidade que, infelizmente, nem todos conseguem ver. Na verdade bem poucos conseguem ver! Olhar aquilo que acreditamos como sendo (também) uma fantasia, uma ilusão e ou uma mitologia é possivelmente o exercício mais difícil de desapego, humildade genuína e autoconhecimento que corajosamente podemos realizar. O medo é tanto que nem admitimos que possa haver algo a ser checado com a nossa maneira de ver a realidade. O desafio é perceber que a nossa percepção é apenas uma percepção. Repetindo: perceber que a nossa percepção é… apenas uma percepção!

A pergunta que fica é que se não vemos as coisas como elas são, deveria ser fácil provar isso, mostrando como as coisas realmente são. Sim é fácil e já foi mostrado e demonstrado milhares de vezes. A pergunta, então, deveria ser: porque não “caímos na real”?

Vou apresentar um dos mais famosos exemplos criados por Christopher Chabris e Daniel Simons que depois (2010) se tornou o livro “O Gorila Invisível”. Um livro delicioso! Trata-se de um experimento que realizaram em 1999. Pediam para as pessoas assistirem um vídeo bem curto com a instrução de contar os passes dos que estão de camisa branca. Viam-se três jovens de camisa branca e três de camisa preta que iam se movimentando e passando uma bola de basquete entre os da mesma cor de camisa. Cada time tinha sua própria bola. Depois de um curto tempo aparece uma mensagem perguntando quantos passes você contou e em seguida dizendo que a resposta correta era 15 passes. O meu choque veio com a pergunta seguinte: Mas… você viu o gorila?! Gorila? Que gorila? O vídeo então volta as imagens e mostra o momento em que uma pessoa vestida de gorila passa entre os jovens, para no meio da tela e bate no peito zombando de nossa completa cegueira. A primeira vez que vi o vídeo achei que era um truque de vídeo, porque seria completamente impossível eu não ter visto aquele monstro tão descaradamente visível….”

Esse mês de julho abriu espaço para entendermos melhor o quanto não estamos entendendo os números de nada. Ou melhor… que os números não dizem nada e provavelmente nunca disseram. Estamos tão presos aos números que São Paulo teve uma instabilidade no sistema  do DataSUS de contagem casos da Covid19 num único dia e a sensação foi de alegria de que os números caíram, no dia seguinte apresentou os números atualizados e quase gerou pânico que os casos tiveram uma subida com novo recorde no Estado. A que ponto chegamos? Somos movidos a números que não temos a menor ideia de como são produzidos e, no entanto, reagimos de acordo com essa miragem. As eleições que o digam! Somos movidos por essas quimeras que chamamos de realidade.

Esse mês foi também o palco de diversos manifestos e cartas no Brasil. Destaco três:

A “Carta ao Povo de Deus” que foi produzida por 152 bispos, arcebispos e bispos eméritos do Brasil. Ela “vazou” no domingo (26/07) e está mobilizando um contingente grande de pessoas entre católicos e não católicos. Desdobramentos virão.

O manifesto #liberteofuturo foi lançado no domingo 5 de julho “Queremos lutar pelo futuro do presente ―no presente.” liberteofuturo.net

O manifesto da Coalizão Brasil lançado em 17 de julho representa bem o que precisa ser feito para a proteção dos povos indígenas. Leia na íntegra:

Brasil precisa proteger os povos indígenas contra a pandemia e a ilegalidade

 A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimento formado por mais de 200 representantes do agronegócio, da sociedade civil, setor financeiro e academia, acredita que é possível ser uma potência florestal, agrícola e da biodiversidade e, ao mesmo tempo, conservar e expandir o enorme patrimônio natural do país. Mas este modelo só tem sentido se garantir também a proteção aos povos originários da floresta.

A contribuição dos territórios indígenas para a integridade do bioma Amazônico já foi comprovada em diversos estudos. Além da proteção ao meio ambiente, que beneficia também a produção agrícola, essas populações representam uma enorme riqueza e diversidade sociocultural. Por isso, sempre que a defesa dos territórios ou modos de vida dos indígenas brasileiros e seus conhecimentos tradicionais são ameaçados, o Brasil também corre risco.

Historicamente vulneráveis a doenças e reféns de uma estrutura precária de serviços de saúde, especialmente na região Norte, os mais de 800 mil indígenas do país enfrentam um cenário crítico em meio à pandemia da Covid-19. Segundo dados do IPAM, a taxa de mortalidade entre indígenas é mais que o dobro dos não indígenas. Diante dessa ameaça, torna-se fundamental a redução da circulação entre cidades e aldeias.

Por isso, a Coalizão Brasil reforça a urgência de implementar o Plano Emergencial para Enfrentamento à Covid-19 nos Territórios Indígenas, como forma de assegurar o acesso às ações e aos serviços de prevenção necessários a essas comunidades. Além disso, o movimento vê com preocupação os vetos da Presidência a garantias básicas que o texto do plano trazia. Preocupa também as ações do Governo para medicar essas populações com remédio cuja comprovação científica tem sido questionada pela classe médica e pela Organização Mundial de Saúde. Por isso, a participação efetiva dos povos indígenas na execução do plano é um princípio básico de respeito e eficácia.

A crise da Covid-19 às comunidades indígenas tem sido agravada pela constante invasão de suas terras que, além de levar o crime a esses territórios, levam esse vírus a essas populações. Por isso, é urgente que o Executivo cumpra a decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, que determinou a retirada imediata de todos os garimpeiros da Terra Indígena Ianomâmi – estimados em 20 mil invasores – e a presença de servidores da Funai, do Ibama e de militares durante a pandemia para conter a ilegalidade nessas áreas.

Garantir a proteção dos povos e comunidades indígenas durante e após a pandemia é garantir que o Brasil promova e respeite os direitos humanos, o meio ambiente e a agricultura, que depende dos serviços ambientais das florestas. É um compromisso que traz benefícios para a imagem do país, para a posição dos produtos brasileiros nos mercados internacionais e para as pessoas que vivem e protegem a floresta. Por isso, o interesse na segurança e bem-estar dos povos originários é de todos os brasileiros e um dever do Estado e, assim, exige medidas imediatas do Governo.

 

Sobre a Coalizão Brasil
A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura é um movimento multissetorial que se formou com o objetivo de propor ações e influenciar políticas públicas que levem ao desenvolvimento de uma economia de baixo carbono, com a criação de empregos de qualidade, o estímulo à inovação, à competitividade global do Brasil e à geração e distribuição de riqueza a toda a sociedade. Mais de 200 empresas, associações empresariais, centros de pesquisa e organizações da sociedade civil já aderiram à Coalizão Brasil – coalizaobr.com.br

Primeiro de Julho

O mês do meio ambiente foi marcado pelo agravamento da degradação do meio ambiente, da proteção aos povos indígenas, da educação, da cultura e da verdade… sim degradação da verdade! Acredito que o genocídio das nações indígenas seja o mais urgente dentro de tantas urgências e emergências. O Brasil está na UTI!

Ao mesmo tempo, o mês do meio ambiente foi palco de centenas de ações, encontros e movimentos na direção da conscientização (awareness) em direção à sustentabilidade (por mais desgastada que esteja essa palavra). Essa semana tivemos a celebração dos 20 anos da publicação da Carta da Terra. Esse livro (que você está lendo) guarda um espaço especial para esse documento que deveria ser obrigatório para todo cidadão do planeta. Ele é a constituição da nossa Humanidade, nosso manual de funcionamento. Simples e complexa ao mesmo tempo. Espero que num futuro breve ninguém tome qualquer decisão sem antes consultá-la. No final desse texto coloco novamente seu preambulo da Carta da Terra.

Em 17 de junho começou um movimento que em menos de 15 dias está alcançando um impacto surpreendente, dele se desdobrarão muitos outros criados pela sociedade civil. O “Stop Hate for Profit” (Pare de Dar Lucro ao Ódio) gerou uma retirada bilionária de anúncios no Facebook por mais de 250 empresas, além de mobilizar as corporações a rapidamente se posicionarem publicamente. Que feito! Esse movimento abre um precedente para que cidadãos e organizações da sociedade civil se mobilizem em causas que podem gerar grandes prejuízos para as empresas, ou seja haverá uma reação imediata como está ocorrendo no Facebook que em pouquíssimos dias está implementando o que vem sendo reivindicado há anos. Esse movimento vem, com certeza, para o Brasil assim como o Sleeping Giants (que denuncia as empresas que financiam anúncios em sites de fake news) chegou em maio e já está causando graves prejuízos a esses sites de notícia falsas e, além disso, fez com que varias empresas de porte tivessem que vir a público para se justificarem. Maravilhoso! No final desse texto anexo a carta, simples, que escreveram no site do #StopHateforProfit.

Como disse acima, os protetores das florestas precisam ser protegidos da gigantesca ganância internacional, com criminosos nacionais, inacreditavelmente apoiados pelo governo. Os povos da floresta são tão diversificados em cultura, linguagens e sabedorias que não podemos colocá-los num mesmo rótulo. Cada nação vem sofrendo ataques dos mais diversos e precisam da atenção de todos os habitantes do planeta. Faça alguma coisa, por menor que seja. Faça alguma coisa, porque não somos coniventes com esse genocídio. Faça alguma coisa, não se conforme com a banalidade do mal. Tenho ajudado de forma direta algumas iniciativas específicas e divulgado, lá fora, nos formadores de opinião. Colecionei artigos em inglês para ilustrar e facilitar a divulgação. Por exemplo no site do Democracy Now (democracynow.org/2020/5/26/brazil). Vou anexar a carta que circulou o mundo, gerou encontros, lives e manifestações. A carta aberta é do Sebastião Salgado e foi assinada por centenas de milhares de pessoas.

Sobre a pandemia no Brasil, nem sei o que falar. Continuamos acreditando nos números que são mostrados diariamente como se tivessem qualquer relação com a realidade. Conforme exaustivamente explicitado no início desse livro, a necessidade de uma notícia qualquer ser acompanhada de um número (na maioria das vezes enviesado) é “de chorar”. A cidade de São Paulo deve ser a cidade em que mais morreram pessoas de COVID-19, apesar de oficialmente ser a segunda (por enquanto), atrás de Nova York. Triste pensar que tivemos tempo para aprender e apreender com os países que foram duramente afetados. Aprender principalmente com os erros. Mas não… não conseguimos superar nossas ignorâncias e a responsabilidade é toda nossa, de nós todos! Para onde estamos indo? O que nos espera para esse mês de julho?

Vou parar por aqui citando o Fritjof Capra, que hoje, numa conversa com Lourenço Bustani numa live da Mandalah citou Bob Dylan ao se referir ao que devemos esperar do futuro: A resposta, meu amigo, está soprando ao vento (The answer my friend is blowing in wind).

 

Anexo 1 – Preambulo Carta da Terra

PREÂMBULO

Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro.

À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas.

Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum.

Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz.

Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações.

 

Anexo 2 – Pare de dar Lucro ao Ódio

#StopHateforProfit (stophateforprofit.org)

O que você faria com US$ 70 bilhões?

Sabemos o que o Facebook fez.

Eles permitiram o incitamento à violência contra manifestantes que lutavam pela justiça racial nos Estados Unidos, na sequência de George Floyd, Breonna Taylor, Tony McDade, Ahmaud Arbery, Rayshard Brooks e muitos outros.

Eles chamaram o Breitbart News de “fonte confiável de notícias” e fizeram do The Daily Caller um “verificador de fatos”, apesar de ambas as publicações terem registros de trabalho com supremacistas brancos conhecidos.

Eles fecharam os olhos à flagrante supressão de eleitores em sua plataforma.

Eles poderiam proteger e dar suporte a usuários negros? Eles poderiam chamar a negação do Holocausto como ódio? Eles poderiam ajudar a viabilizar a votação?

Eles absolutamente poderiam. Mas eles estão optando ativamente por não fazê-lo.

99% dos US $ 70 bilhões do Facebook são feitos através de publicidade.

Com quem os anunciantes estarão?

Vamos enviar uma mensagem poderosa ao Facebook: seus lucros nunca valerão a pena promover ódio, fanatismo, racismo, anti-semitismo e violência.

Por favor junte-se a nós.

 

Anexo 3 – Carta Aberta Lélia e Sebastião Salgado (1 de maio)

Lélia e Sebastião Salgado: ajude a proteger os povos e indígenas da Amazônia do Covid.

Os povos indígenas do Brasil sofrem há muito tempo com a desmatamento, incêndios florestais, rios envenenados e invasão de suas terras. Agora eles correm o risco de ser dizimados pelo Covid-19, a menos que sejam tomadas medidas urgentes para protegê-los. O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, que trabalhou na Amazônia na última década, e Lélia Wanick Salgado, que projeta seus livros e exposições, estão pedindo uma ação imediata para proteger essa frágil população do risco do coronavírus transportado por invasores de suas terras. O apelo abaixo é dirigido aos três Poderes do Estado brasileiro. Sebastião e Lélia pedem que você assine e compartilhe.

APELO URGENTE AO PRESIDENTE DO BRASIL E AOS LÍDERES DO CONGRESSO E DO JUDICIÁRIO

Os povos indígenas do Brasil enfrentam uma grave ameaça à sua própria sobrevivência com o surgimento da pandemia do Covid-19. Há cinco séculos, esses grupos étnicos foram dizimados por doenças trazidas pelos colonizadores europeus. Ao longo do tempo, sucessivas crises epidemiológicas exterminaram a maioria de suas populações. Hoje, com esse novo flagelo se disseminando rapidamente por todo o Brasil, comunidades nativas, algumas vivendo de forma isolada na Bacia Amazônica, poderão ser completamente eliminadas, desprovidas de qualquer defesa contra o coronavírus.
Sua situação é duplamente crítica, porque os territórios reconhecidos para uso exclusivo de populações autóctones estão sendo ilegalmente invadidos por garimpeiros, madeireiros e grileiros. Essas operações ilícitas se aceleraram nas últimas semanas, porque as autoridades brasileiras responsáveis pelo resguardo dessas áreas foram imobilizadas pela pandemia. Sem nenhuma proteção contra esse vírus altamente contagioso, os índios sofrem um risco real de genocídio, por meio de contaminações provocadas por invasores ilegais em suas terras.
Diante da urgência e da seriedade dessa crise, como amigos do Brasil e admiradores de seu espírito, cultura, beleza, democracia e biodiversidade, apelamos ao Presidente da República, Sua Excelência Sr. Jair Bolsonaro, e aos líderes do Congresso e do Judiciário a adotarem medidas imediatas para proteger as populações indígenas do país contra esse vírus devastador.
Esses povos são parte da extraordinária história de nossa espécie. Seu desaparecimento seria uma grande tragédia para o Brasil e uma imensa perda para a humanidade. Não há tempo a perder.

Respeitosamente,
Sebastião Salgado
Lélia Wanick Salgado

Primeiro de Junho

Carta para minha Neta

Oi pequena, você nasceu no primeiro dia do mês do meio ambiente. Que bom presságio! Claro que seu avô aqui torceu para ter sido no dia 5, mas com tanta coisa para ser e fazer nesse mundo… melhor mesmo chegar antes!

Quando te vi pela primeira vez tive a sensação de que você também me viu. Senti o peso do legado e do futuro por vir. Senti o frescor da tarde e das folhas no chão de outono. Apesar da máscara, seu avô estava sorrindo de amor.

Deixa-me te contar um pouco sobre esse mundo que você acabou de chegar e dos caminhos que seu caminhar pode encontrar. Se por um lado está tudo diferente do que estava quando você aportou a nave mãe, por outro estamos adentrando uma civilização novinha em folha.

Para começar os jovens estão a frente desse movimento, o problema é que a maioria tem menos de 18 anos. Daqui há dez anos terão consolidado uma maneira completamente diferente de ver as relações humanas da maneira que ainda vemos hoje. Você só terá 10 anos, mas estará vendo o mundo com esse novo olhar, com essa nova percepção… isso será o marco fundamental de uma nova sociedade voltada para ampliação da consciência e restauração ecológica. Não haverá economia sem ecologia, educação sem aprendizagem, religião sem espiritualidade, política sem cidadania e nem medicina sem saúde.

Oi pequena, esse livro que estou escrevendo é para você e sua geração. Não para vocês lerem, mas para aqueles que estão abrindo os caminhos nessa crise civilizatória e deixarão um cenário possível de ser e fazer. Aqui falo desse novo caminho que renascerá das cinzas e de alguns aspectos que nos levaram até aqui.

De qualquer maneira estarei ao seu lado aprendendo e apreendendo sobre o futuro no presente dessa nova percepção e presença.

P.S. A carta de primeiro de junho teria sido sobre os exemplos das loucuras que é acreditar em números, mídia e um dos lados. Seria perfeito para ilustrar o que escrevo sobre o acreditar no inacreditável, da irresponsabilidade das mídias e da miopia da polarização. Além disso falaria do vídeo da reunião dos ministros com o presidente e do início dos movimentos mais próximos aos de junho de 2013… só que virtual. Estamos juntos!

Primeiro de Maio

Estou publicando esse texto que pertence ao livro que estou escrevendo. Comecei escrevendo uma carta no dia primeiro de janeiro e a cada primeiro dia do mês, escrevo outra. Resolvi publicar a de primeiro de abril e faço o mesmo nesse primeiro de maio. Essas cartas estão no capitulo de uma retrospectiva. Nesse ano de 2020 escrevo uma carta para cada mês, nas primeiras décadas do século XXI, escrevo uma para cada ano e estou escrevendo uma carta para cada uma das últimas cinco décadas do século XX. Segue a carta:

Hoje primeiro de maio de 2020, um feriado (se é que isso ainda existe). Estou novamente com a sensação de que o tempo se estendeu. Quase não conseguimos lembrar de quem éramos em fevereiro (tão pouco tempo atrás). O mês de abril gerou um encaminhamento para um aparente novo normal. Ou, o que é mais provável, o início da percepção de que o normal não era nada normal.

Nesse mês se ampliaram os sintomas de incontinência virtual e uma crença, inacreditavelmente ingênua, de que as funções do presencial podem ser simplesmente repassadas para o virtual. Vemos isso em larga escala nas escolas, nas terapias e nas reuniões.

Escolas – A maioria das escolas estão com dois graves problemas: o primeiro é que estão evidenciando a falta de know-how nos sistemas de uma verdadeira aprendizagem que aparecem na simples transposição para o virtual sem uma clara declaração que não sabem o que estão fazendo. Tem escolas que já vem percebendo isso há muito tempo (o que é uma coisa boa) e outras que não. Continuam fingindo que ensinam e os alunos continuam fingindo que aprendem.  O segundo problema é que os pais vão começar a se questionar sobre a função da escola. Afinal… para que serve mesmo esse alto e longo investimento na escola? Nada que já não tenha passado, em alguma vez, pela cabeça dos pais, mas que rapidamente procuram esquecer essa disrupção. Nesse momento de crise existe uma oportunidade para questionar o atual modelo mental que construiu os sistemas de aprendizagem das escolas. Será as escolas tem essa coragem? Será que os pais tem essa ousadia? Sim, por que os estudantes estão prontos faz tempo!

Terapias – Seria engraçado se não fosse trágico o que estamos vivenciando nesses dois meses de isolamento social. A GRANDE maioria dos terapeutas vem, nesses últimos anos, negando o campo terapêutico virtual. Isso para não ter que dizer que simplesmente ridicularizavam o espaço virtual de terapia. Do dia para noite é tudo bem… funciona… é necessário e principalmente assumem uma certa familiaridade com o que não possuem a menor a ideia de como funciona e o por quê desse espaço. O que provavelmente vai acontecer é que os pacientes vão perder a paciência e migrar para obter resultados mais eficazes com quem levou anos estudando e aprendendo sobre o campo de terapia virtual. Isso vai acontecer naturalmente com o compartilhamento (virtual) de suas experiências e a demanda será muito maior do que a oferta por um bom tempo. Minha sugestão aos terapeutas virtuais iniciantes é que reflitam sobre como estão se sentindo com esse novo formato. Se acham que estão atrapalhados, não estão conseguindo dar o seu melhor, sentem-se inseguros desde lidar com as ferramentas até entender a amplitude dessa nova linguagem e suas possibilidades… fiquem tranquilos, vocês estão numa ótima posição para aprender e apreender nesse novo e maravilhoso mundo virtual. Sejam honestos com seus pacientes e provavelmente lhes ajudarão com lovebacks a caminhar nessa direção. Agora se você acredita que está bem e basicamente domina a técnica e a tecnologia. Tem familiaridade com Facebook, Instagram, Zoom, Doxy, Facetime, Google Meetings, Hangout e sua maestria como terapeuta compensa esse momento temporário… vocês estão com sérios problemas existências. Seus pacientes também! Sugiro que procurem um bom terapeuta urgente! Terapeutas, não estamos numa situação passageira onde tudo voltará ao normal em breve! O novo normal ainda é desconhecido e está sendo construído conforme o caminho vai sendo construído. “Caminhante não há caminho, o caminho se faz ao caminhar.”

Reuniões – É aqui que a incontinência virtual mais se manifesta. Com a maior das boas intenções, das mais nobres causas está se promovendo uma gigantesca onda de “lives” e encontros virtuais. Em menos de dois meses ninguém aguenta mais passar horas tendo que sorrir (porque está sendo gravado) e fazer perguntas inteligentes no chat. Ninguém aguenta até mesmo o que há pouco tempo atrás cobiçava em participar. Pior é ter que fingir que está naquela reunião que pega muito mal não estar. O problema aqui é de presença e da qualidade dessa presença quando a natureza está mesmo pedindo recolhimento. Somos a natureza, portanto estamos pedindo recolhimento. O que acontece quando você não faz o que o seu corpo/mente/emoção pede? Fica doente! Não é o momento para ficarmos doentes. Não tenho a menor ideia do que sugerir nesse quesito. Estou com o mesmo problema que todos vocês!

Mergulhado por quatro meses em escrever esse livro continuo com a mesma sensação de que esse livro deveria ter saído no início de 2020 e não no início de 2021 como está previsto por enquanto. Ao mesmo tempo está sendo um privilégio escrever sobre a crise civilizatória enquanto ela está gritando mais alto do que nos últimos 20 anos de imensos esforços de conscientização.

Nas primeiras páginas desse livro escrevi, ainda em janeiro, uma brincadeira provocativa:

“Só abra esse livro em caso Emergência!

Em tempos de dificuldades é importante avaliar se a crise é… sinal ou ruído; passageira ou permanente; mudança ou transformação; vida ou morte!”

Ao escrever essa frase achei que poderia causar um certo distanciamento e desconforto, por isso coloquei a frase inicial (Só abra em caso de emergência) para suavizar o tom. Mas olhando hoje ela está bem próxima e pertinente. Suas respostas, quanto a essa crise, precisam ser avaliadas… agora!

Sinal ou Ruído?

Esse conceito de observar o barulho que está acontecendo e saber separar se é um sinal ou apenas um ruído aprendi em 1996 no incrível livro “Só os Paranoicos Sobrevivem” do Andy Grove, fundador e presidente da Intel. Nessa pandemia quais são os sinais e quais os ruídos? No início de janeiro parecia que era algo acontecendo “lá longe”, como centenas de noticias que recebemos diariamente. O que dessa barulheira poderia indicar que era um sinal de que isso tomaria as proporções que tomou? A questão de que uma pandemia vinha vindo com força estava no horizonte com muita força, há pelo menos uns 10 anos. Seria isso suficiente para reconhecer que era um sinal. Pelo menos, para mim não foi. Já no início de fevereiro a história era bem diferente. A China havia feito o lockdown de uma maneira que só uma ditadura conseguiria impor e havia claros indícios de que teria começado bem antes. O volume de pessoas que entra e sai de Wuhan (11 milhões de habitantes) é bem significativa, casos foram confirmados nos EUA, Japão, Tailândia, Taiwan e Coreia do Sul (provavelmente mais países) o que deveria ter dado a indicação clara de era um sinal. Sinal de que poderia ser uma pandemia forte. Eu, assim como muitas pessoas, ainda não havia reconhecido que poderia virar uma pandemia. Só comecei a perceber que era um sinal quando assisti incrédulo aos desdobramentos do confinamento das 3.700 pessoas no navio Diamond Princess no porto de Yokohoma no Japão. Como assim? No dia dois de fevereiro o capitão foi informado que um passageiro que tinha desembarcado oito dias antes em Hong Kong havia contraído o Coronavírus. O navio foi orientado a se dirigir a Baía de Tóquio onde uma equipe de saúde pública bateu a porta de todas as cabines para perguntar se tinham algum sintoma. Dos primeiros 31 testados, 10 estavam infectados. É preciso lembrar que nos primeiros dias de fevereiro o Japão contabilizava apenas 20 casos confirmados e tinham as Olimpíadas programadas para dali a alguns meses. O que fazer? O confinamento que me pareceu um ato extremo e de condenação de parte das 3.711 pessoas entre passageiros e tripulação, foi o que me ascendeu o sinal de alarme.

Como mencionei anteriormente, nesse livro, sobre a onda de Fake News ter nascido no Brasil em 2014 e migrado para o resto do mundo está, seis anos depois, gerando uma enorme dificuldade para separar um sinal de um ruído, o joio do trigo. São tantas desinformações que a única conclusão que podemos chegar é que nossas percepções são tão suscetíveis que compensa tanta gente criar esses delírios ou mentiras propositais – tem gente que acredita -tem muita gente que acredita. Em quais estamos acreditando? Ou seja, como está amplamente descrito no início do livro, nossa verdade é tão volátil quanto a daquele que considero um idiota. Destaco, o que foi para mim, duas coisas boas entre tantas e duas coisas péssimas dentre tantas (os links estão no final):

Boas – encontro com Fritjof Capra e uma entrevista com Charles Eisenstein (duas jóias)

Ruins – ideias do diretor da agência espacial israelense e o filme “Planet of the Humans” (dois lixos)

Em relação a pandemia, o Brasil era para estar numa posição dos mais privilegiados por assistir os desdobramentos com erros (foram muitos) e acertos dos outros países para se preparar melhor. Lamentavelmente não foi o que aconteceu em fevereiro, março e abril. Fomos na contramão do que poderia ter sido. A polarização de 2018 continua forte na população, poucos estão dispostos a ouvir e muito menos a mudar seu modelo mental de pensamento. O mês de maio vai ser o mais difícil até agora e não sabemos de que maneira enfrentaremos os problemas em junho. Enquanto o vírus ocupa 80% da mídia toda, os outros 20% que poderiam ser sobre vivência, são sobre os desgovernos dos desgovernados. Na sexta passada o ministro da justiça se demitiu acusando o presidente de ter cometido varias barbaridades. A mídia ficou focada, ou melhor desfocada, do que deveria ser seu papel como vimos nos capítulos anteriores e esqueceu de dizer que estão invadindo (como nunca) as terras indígenas, que o desmatamento da Amazônia em março foi quase quatro vezes o de março de 2019 que já havia sido gigantesca e tantas outras coisas importantes (boas e ruins) que mereceriam a atenção das pessoas

 

Passageira ou Permanente?

Será que depois desse acontecimento de proporções mundiais tudo voltará a ser como era antes? Será que terá um período de reconstrução e depois voltará ao normal? Algo como acontece com uma enchente, terremoto ou furacão? Quanto tempo para voltar?                     Ou será que haverá algo mais permanente? Um novo normal? Quanto tempo levará para uma migração de uma nova configuração sistêmica? Será depois dessa pandemia ou haverá mais crises? Como avaliar isso dentro desse contexto de crise civilizatória que esse livro aporta? Estamos indo em que direção? Quais serão os novos preceitos dessa complexidade? Espero que as reflexões contidas nesse livro tenha lhe dado parâmetros para que tire suas próprias conclusões.

 

Mudança ou Transformação?

Quando uma crise grave ocorre, o que vemos em seguida é o “como ficou”. Se for uma mudança, pode, desde ter ficado como estava com algumas melhorias reais e ou cosméticas até ter tido mudanças mais significativas apesar de continuar dentro de um mesmo paradigma.

Quando se trata de uma transformação, o todo muda. É o nascimento de uma nova forma de ser e estar. Einstein dizia que nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo grau de consciência que o criou. Uma mudança é mais do mesmo, uma transformação parte de outro estado de consciência.

 

Vida ou Morte?

Será que corremos o risco de extinção da humanidade ou apenas dessa civilização? Ou nenhuma das duas? Vou ficar por aqui nesse primeiro de maio.

 

P.S. Para não dizer que não falei dos trabalhadores, gostaria de falar que a nova economia (também amplamente discutida nesse livro) vai ser implementada muito mais rapidamente do que imaginei. Enquanto ainda tem gente discutindo se protege a saúde ou a economia, como se fossem duas coisas separadas e ou ainda acreditando que esse sistema vai continuar ad infinitum… já tem países alterando seu grau de consciência e planejando mudar as métricas. Chega de economia focada no crescimento do PIB! Criação de uma renda básica universal, defendida pela Yuval Harari e há anos pelo meu professor na FGV, Eduardo Suplicy. Tudo vai mudar na economia apesar do nosso ministro ainda tentar emplacar as ideias da Escola de Chicago dos anos 30 do século passado. O mais irônico é que a própria Escola de Chicago está defendendo a ideia de uma renda básica universal. Seria engraçado se não fosse trágico. Portanto, na minha visão, os trabalhadores vão passar por um momento muito difícil. O mais difícil dos últimos 100 anos. Como e quando sairemos para uma nova economia e quais as consequências ainda são muito incertas. O que me parece de mais animador para os trabalhadores é o encaminhamento para uma economia do Gift (cultura do Gift). Em 2019 isso parecia quase uma utopia e agora está se chegando mais perto. Alemanha e Holanda já estão falando abertamente sobre as transformações no atual sistema econômico. Uma boa notícia no meio de uma crise econômica sem precedentes.

 

Primeiro de Abril

barras coloridas

Estou publicando esse texto que pertence ao livro que estou escrevendo. Comecei escrevendo uma carta no dia primeiro de janeiro e a cada primeiro dia do mês, escrevo outra. Resolvi publicar essa que escrevi hoje porque vivemos o mês de março como se tivessemos vivido um ano inteiro e provavelmente esse mês será mais intenso ainda. Segue a carta:

 

Hoje, primeiro de abril de 2020 parece que faz um ano que escrevi a carta de primeiro de março. Estávamos saindo da semana do Carnaval e o cenário mundial e brasileiro era tão diferente do de hoje. Fico pensando como será minha carta de primeiro de maio…

Esse mês me fez pensar se eu não deveria ter escrito esse livro no ano passado, talvez, teria sido útil agora. Ao mesmo tempo, está sendo um privilégio e um desafio escreve-lo em meio ao que parece que será um divisor de águas para nossa civilização.

O mês de março começou com uma aparente normalidade (claro que de normal não havia nada!). Havia apenas dois registros, importados da Itália, do novo Coronavírus. Um anunciado no dia 26 de fevereiro e o outro no último dia do mês. Além do que acontecia na China, assistimos estupefatos, em fevereiro, a trágica novela do navio Diamond Princess.

Domingo, primeiro de março ainda não estávamos oficialmente em pandemia que só foi anunciado pela Organização Mundial da Saúde no dia 11. Na sexta feira 13, com a divulgação da transmissão comunitária no Brasil começaram os fechamentos de escolas e restrições que foram escalonando ao longo da semana seguinte principalmente com o anuncio da primeira morte pelo vírus no dia 17. Fazem só 15 dias e parece que foram meses atrás!

Das centenas de informações que recebi destaco algumas muito boas (links no fim do capitulo). No dia 16, Otto Scharmer escreveu um artigo “Eight Emerging Lessons: from the Coranavirus to Climate Action” (Oito Lições Emergentes: do Coronavírus para a Ação Climática) que até hoje (01/04) é bem pertinente. Nele fala da passagem de Ego para Eco e das lições que podemos apreender do novo Coronavírus. Além disso, Otto criou o GAIA Journey (27/03),  que serão de 14 semanas de apoio a procurar fazer sentido nesse momento de disrupção e permitir que nos leve a uma renovação civilizatória. No dia 20 de março, o biólogo Atila Lamarino fez uma “live” que desenhava com muita clareza o caminho dessa pandemia até onde se sabia. Há dois dias (30/03) ele falou no Roda Viva e fica difícil entender porque há ainda pessoas tentando negar esse conhecimento. No dia 28, Charles Eisenstein escreveu um artigo muito bom também “The Coronation” (A Coroação). Ou seja apesar das centenas de avisos, dicas e principalmente fake news (por incrível que pareça) está difícil separar o joio do trigo e principalmente não se perder nesse mar de lama.

Estamos vivendo, na última semana, sintomas de incontinência virtual que espero não piorar nas próximas.

O que vejo que está claramente se desenhando no horizonte para iniciarmos a próxima década a partir de primeiro de janeiro de 2021 são:

– A medicina vai finalmente evoluir para cuidar prioritariamente da prevenção ao invés das doenças. Vai se tornar amplamente colaborativa e completamente sem fronteiras. Levará em conta ciência, tecnologia e principalmente culturas. Cuidará fundamentalmente do DNA ao estilo de vida, da alimentação ao ar que respiramos, da meditação a movimentação, da autoestima a psicologia.

– A economia não conseguirá manter seu atual modelo estrutural. O jogo já mudou! Quem tentar jogar com as regras antigas logo perceberá que terá que se tornar alguém detestável para si mesmo e para os outros. Poucas pessoas ficam confortáveis nessa posição. O medo e a insegurança com a sobrevivência vão retardar o pleno funcionamento de uma economia com uma cultura de Gift.

– As escolas nunca mais serão as mesmas. Vamos finalmente sair das metodologias do século XIX para entrar nas condizentes com o século XXI. Quem poderia imaginar que os sistemas de aprendizagem iriam dar esse salto quântico através desse artifício? Quem diria que o conhecimento não estaria mais atrelado a memória e sim a sabedoria? A Educação será livre, com janelas sem salas, com notas de músicas, com folhas da natureza e principalmente com muito amor.

– A politica dos políticos ainda sobreviverá mais algumas primaveras enquanto houver a crença de que o sistema eleitoral tem alguma coisa a ver com a democracia. A política vai migrar dos políticos para a sociedade civil. E as políticas públicas serão decididas pontualmente através da participação dos interessados devidamente qualificados. Em pouco tempo os políticos serão substituídos por uma nova geração de políticos conectados com a sociedade civil.

– A religião, no geral, terá dificuldades de manter o véu da ignorância como força motriz da maioria de seus seguidores. Apesar da imensa fome por algo que explique o inexplicável, por um sabor de pertencimento, por um alimento para a alma… a busca será mais ouvindo a voz de dentro do que a palavra dos gurus. Você, finalmente, será seu próprio guru!

Ao contrário da carta de março, essa é dedicada integralmente a insustentável leveza do Ser, diante da nova pandemia.

P.S. Para não dizer que não falei do primeiro de abril, quero salientar a interessante versão de que esse era o primeiro dia do calendário Juliano que apesar do novo calendário (Gregoriano) ter mudado para o primeiro de janeiro, as pessoas insistiam em considera-lo o primeiro dia do ano. Foi necessário então denegrir essas pessoas, ridicularizá-las para que passassem a obedecer a nova convenção. Nesses tempos em que a mentira é propagada todo dia, seria interessante criar o dia da Verdade em que seriam ridicularizadas as pessoas que mentissem. Hoje, as pessoas que mentem diariamente, não só não são denegridas como acabam sendo eleitas pela maioria da população. Que fenômeno interessante!

Dorothy Maclean completa hoje 100 anos de idade.

Parabéns a esta ambientalista que é praticamente a mãe da maioria das Ecovilas do mundo.

Ela fundou a comunidade de Findhorn (com o casal Peter e Eileen Caddy)

no início dos anos 60 na Escócia. Hoje é a maior ecovila do Reino

Unido.

O interesse no exuberante jardim que conseguiram fazer florescer no impossível solo arenoso de dunas e os princípios espirituais que estão por trás da vitalidade desse excepcional jardim, atraíram muitos visitantes.

O sucesso da Ecovila atraiu também reportagens que começou em 1969 com o programa “Man Alive” da BBC. Depois vieram outros e outros. Uma curiosa apresentação em 1973 no “Mainly Magnus” da BBC pode ser vista no https://www.bbc.co.uk/programmes/p00qh3mz

Em 1975 Paul Hawken publicou o livro “A Magia de Findhorn” que consolidou de vez o protagonismo de Findhorn para a criação de Ecovilas pelo mundo afora.

Para quem quiser enviar uma mensagem de gratidão, flores, bênçãos ou saber mais sobre a Dorothy Maclean entre no https://www.findhorn.org/blog/dorothy-maclean-100/