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Posts Tagged ‘Marina Silva’

Esse é um texto (WORLD on FIRE) escrito por Charles Eisenstein, disponível no original (em inglês) no https://charleseisenstein.org/essays/world-on-fire/

A foto que ilustra o artigo foi gentilmente cedida pelo fotógrafo Mario Friedlander (instagram.com/mariofriedlander)

 

O MUNDO EM CHAMAS 

por Charles Eisenstein

O Pantanal brasileiro é a maior área úmida tropical do mundo, cobrindo uma área quase do tamanho da Grã-Bretanha. Só que hoje, não está tão molhada. Após um verão de seca, estão ocorrendo incêndios catastróficos que já devastaram 2,4 milhões de hectares de terra este ano. (Isso é mais do que queimou na Califórnia, Oregon e Washington juntos.) Sua preciosa vida selvagem, incluindo a maior população de onças-pintadas do mundo, está sofrendo danos irreparáveis.

 

O que está causando a destruição? As causas mais aparentes parecem bem diferentes do que está causando os incêndios na Califórnia, mas se nos aprofundarmos através de várias camadas o suficiente, chegaremos à mesma causa profunda e, portanto, à mesma solução profunda.

 

Desde 2019, incêndios catastróficos têm atingido a Amazônia, a bacia do Congo, Austrália, Sibéria, Argentina e inúmeros outros lugares. Enquanto alguns na Direita política negavam que algo incomum estivesse acontecendo, hoje todo o espectro político está de acordo em que algo está terrivelmente errado. Nos Estados Unidos, a Direita oferece explicações de candidato como manejo florestal deficiente, enquanto os políticos democratas enfatizam a mudança climática. O que os dois concordam é que o estado atual das coisas é anormal, inaceitável e requer ação. Isso, pelo menos, é um progresso.

 

Na verdade, ambos os lados estão abordando a mesma verdade por direções diferentes. Deixe-me começar com o manejo florestal, passar pelas mudanças climáticas através da porta dos fundos, visitar o comportamento flagrantemente criminoso por trás dos incêndios na Amazônia e no Pantanal e finalmente chegar ao cerne da questão.

 

Gestão florestal

 

Artigos da Direita sobre os incêndios nos EUA geralmente invocam a frase: “As florestas devem ser mantidas de maneira adequada para evitar incêndios catastróficos”. Frequentemente, a conclusão deles é que regulamentações governamentais pesadas impediram a indústria madeireira de abater árvores mortas e manejar as florestas com sabedoria. O problema, claro, é que, sujeitas às forças do mercado, as empresas madeireiras historicamente e até o presente manejaram as florestas de acordo com o lucro, não com a sabedoria. Outro problema é que, mesmo que superficialmente, não pode ser correto afirmar que as florestas exijam manejo humano. Há mais de doze ou quinze mil anos atrás, não havia nenhum humano na Califórnia, mas a natureza cuidava de si mesma muito bem.

 

A história não é tão simples – as florestas, então, como agora, exigiam manejo. Em tempos pré-humanos o manejo era realizado por outras espécies como, na América do Norte, castores, salmão e principalmente a megafauna. O continente fervilhava de herbívoros gigantes, como mamutes e mastodontes, que devoravam árvores que brotavam, arrancavam cascas, pisoteavam a vegetação e derrubavam árvores como tratores. Esses “engenheiros de ecossistema” criaram paisagens em mosaico de floresta e savana e tornaram as florestas menos densas. Após seu desaparecimento logo chegaram os humanos, os humanos os substituíram como engenheiros do ecossistema, usando queimadas controladas e muitos outros métodos para manter paisagens produtivas, resilientes e biodiversas que eram resistentes a incêndios catastróficos. Como Kat Anderson descreve em Tending the Wild (Cuidando da Natureza):

 

                       “Por meio de corte, poda, gradagem, semeadura, capina, queima, escavação, desbaste e colheita seletiva, eles incentivaram as características desejadas das plantas individuais, aumentaram as populações de plantas úteis e alteraram as estruturas e composições das comunidades de plantas. A queima regular de muitos tipos de vegetação em todo o espaço local criou um habitat melhor para a caça, eliminou os arbustos, minimizou o potencial de incêndios catastróficos e incentivou a diversidade de culturas alimentares. Essas práticas de colheita e manejo, em geral, permitiram a colheita sustentável de plantas ao longo dos séculos e possivelmente milhares de anos.”

 

Um cenário semelhante ocorreu na Austrália dezenas de milhares de anos antes: a colonização humana seguida pelo desaparecimento da megafauna, seguida por queimadas controladas primorosamente desenvolvidas e outras técnicas de gestão de ecossistemas. Em ambos os continentes, mesmo quando a megafauna desapareceu, outros engenheiros de ecossistema floresceram: pássaros migratórios, predadores de vértice, castores, insetos e assim por diante.

 

Nos últimos séculos, as florestas e outros ecossistemas passaram a ser manejados não para a saúde, mas para o lucro. Hoje vemos sinais de uma reviravolta à medida que os formuladores de políticas começam a reconhecer a necessidade de reduzir os materiais combustíveis nas florestas; às vezes até consultam povos tradicionais que se lembram dos velhos hábitos. Muitas vezes, porém, os motivos de lucro pervertem as práticas de desbaste da floresta, levando-as a produzir madeira para venda em vez da saúde da floresta.

 

Além disso, os combustíveis florestais é um foco muito estreito na compreensão dos incêndios catastróficos de hoje. Um século ou mais de desmatamento e outros abusos de terra reduziram a resistência das florestas aos incêndios e criaram condições de seca que as agravam. É comum declarar que as mudanças climáticas estão prejudicando as florestas, mas pode ser mais correto dizer que os danos às florestas causam as mudanças climáticas, que prejudicam ainda mais as florestas.

 

O corte raso da floresta afeta o clima muito além da oxidação do carbono armazenado. Sem folhas, serapilheira (material orgânico em decomposição) e raízes para protegê-la, a camada superficial do solo é lavada e a água da chuva não tem chance de penetrar na terra. As inundações resultantes são inevitavelmente seguidas de secas. Por quê? Uma floresta saudável transpira água subterrânea, mantendo as condições de umidade e prolongando a estação das chuvas. Globalmente, pelo menos 40% das chuvas se originam da transpiração das plantas; na Amazônia é de 70%.

 

As florestas também contribuem para o resfriamento local, regional e global, à medida que a água transpirada evapora e sobe para a atmosfera. Seu calor latente é liberado quando ela se condensa mais acima, parte da qual irradia para o espaço. Além disso, as florestas saudáveis ​​emitem compostos e partículas de nucleação de gelo, aumentando a cobertura de nuvens, criando chuva e refletindo a luz solar de volta ao espaço. Florestas nativas desempenham essas funções especialmente bem (apenas 1% das florestas nativas da Califórnia permanecem). Aqui está uma passagem, ligeiramente modificada, de meu livro sobre o clima:

 

O Quênia, que perdeu a maior parte de sua cobertura florestal na última metade do século, também está sofrendo com secas persistentes e temperaturas mais altas. Regiões do Quênia, onde a temperatura diurna na floresta pode ser de 19 graus, registram temperaturas nas proximidades, onde recentemente limparam terras agrícolas, de 50 graus.… Em Sumatra, as terras desmatadas para plantações de óleo de palma foram

 

10 graus mais quentes do que a floresta tropical próxima e permaneceu mais quente mesmo quando as palmeiras amadureceram.

 

Uma floresta real e viva interage com o ciclo da água de maneiras complexas que a ciência está apenas começando a entender. (Muito do que se segue é proveniente do fantástico livro Global Deforestation, de Runyan & D’Odorico.) Uma maneira é convertendo umidade em chuva. O vapor de água na atmosfera não necessariamente cai como chuva, mas pode persistir como neblina no que é conhecido como “seca úmida” (humid drought). Uma razão para a formação de neblina é uma superabundância de pequenos núcleos de condensação, o que impede que as gotas de água se tornem grandes o suficiente para cair como chuva. Poluentes, fumaça de incêndios florestais e poeira de solo desidratado estão entre os culpados pela formação de névoa. Sobre as florestas, os núcleos de condensação são principalmente biogênicos, incluindo detritos de plantas, bactérias, esporos de fungos e aerossóis orgânicos secundários originados como compostos orgânicos voláteis emitidos pela vegetação. Isso ajuda na formação de nuvens carregadas de precipitação em vez de neblina, e permite a formação de nuvens em temperaturas mais altas do que os núcleos abióticos. Pesquisas recentes confirmam o aumento da cobertura de nuvens sobre e perto das florestas. Essas nuvens mais baixas e espessas têm um efeito de resfriamento maior do que as nuvens de grande altitude. De acordo com um pesquisador, um aumento de 1% no albedo (coeficiente de reflexão) das nuvens geradas pela floresta compensaria todo o aquecimento das emissões antropogênicas de gases de efeito estufa.

 

As florestas saudáveis ​​não apenas reciclam a chuva, mas também a retiram do oceano por meio do mecanismo da bomba biótica. O vapor de água evapotranspirado se condensa para criar zonas de baixa pressão, que puxam um novo ar carregado de umidade dos oceanos e afetam os padrões globais de vento e, portanto, os padrões de chuva. Quando as florestas são danificadas ou destruídas, a fisiologia da Terra fica comprometida.

 

No oeste dos Estados Unidos, o represamento de rios e o quase extermínio de castores também causou danos incalculáveis ​​às florestas e ao clima. As barragens evitam inundações sazonais, alteram a distribuição de sedimentos, levam à erosão a jusante e impedem os peixes migratórios que transportam nutrientes marinhos para a floresta e desempenham um papel fundamental nas cadeias alimentares. Os castores criam pântanos, aumentam a biodiversidade e reduzem a velocidade da água para mitigar inundações e sustentar os lençóis freáticos. Na verdade, a extinção de qualquer espécie enfraquecerá toda a floresta (ou qualquer ecossistema), assim como sua saúde sofreria se você destruísse um tipo de tecido ou célula. Após séculos de destruição do habitat ao redor do mundo, é incrível que a Terra ainda esteja se agarrando à saúde.

 

Criminalidade e Ignorância

 

Meu amigo brasileiro Alan Dubner me descreveu a “cascata de criminalidade” que está destruindo a Amazônia. Primeiro vêm os madeireiros, usando métodos sofisticados para escapar da aplicação do governo às proibições de madeira. O que sobrou seca facilmente e pode ser queimado pelos criadores de gado, que pastam seu gado no que está tentando crescer novamente. Em seguida, vêm as plantações de soja, exaurindo qualquer fertilidade que resta no solo. O que resta é basicamente um deserto, inútil para ninguém, exceto as empresas de mineração que acabam com a ruína.

 

Quanto mais da Amazônia é destruída, menos chuva ela pode puxar do oceano Atlântico e mais vulnerável a incêndios. O declínio das chuvas afeta o resto do Brasil, desde o Pantanal ao sul. Na verdade, o poder da bomba biótica amazônica é tal que sua desestabilização altera os padrões climáticos em todo o mundo.

 

O Pantanal é afetado não apenas por mudanças nos padrões climáticos, mas também por grandes barragens hidrelétricas e invasão progressiva de pecuaristas. As grandes zonas úmidas do Pantanal tornam-se altamente inflamáveis ​​quando secam, dando a proprietários de terras e especuladores inescrupulosos a oportunidade de provocar incêndios. A renomada ambientalista brasileira Marina Silva me escreveu o seguinte comentário: “Tragédia orquestrada. É o que está acontecendo no Pantanal aqui no Brasil. Desmonte das políticas ambientais, corte de recursos para combater desmatamentos e queimadas, tudo isso em uma ação de criminosos, o resultado não podia ser outro.”

“O que precisa ficar claro é que as queimadas no Pantanal e na Amazônia não são acidentais. Fazem parte de um projeto e de uma visão de mundo que despreza o meio ambiente, com os quais o governo compactua e incentiva. Não importa se é o território com maior diversidade de mamíferos do mundo, a maior área úmida do planeta e com maior presença de onças-pintadas.”

Vamos dar um passo para trás por um momento. A criminalidade de que Marina Silva fala é especialmente danosa por causa das condições trazidas por outra criminalidade em outras áreas, como a Amazônia. No entanto, não podemos culpar inteiramente a criminalidade pelos incêndios do mundo. Afinal, a maior parte do desmatamento e degradação florestal é perfeitamente legal. O problema está na mentalidade e nas forças econômicas subjacentes à destruição das florestas, sejam elas criminais, legais ou mesmo inconscientes.

 

A extração ilegal de madeira e queimadas estão no mesmo espectro que os conservadores de “mau manejo florestal” culpam pelos incêndios nos Estados Unidos. Em vários graus, ambos suprimem em vez de participar dos processos naturais. Eles compartilham do padrão de dominação: dominação física construída sobre o rebaixamento conceitual de que florestas vivas são meras coisas. Os conservadores estão, em certo sentido, corretos, exceto que a “má gestão” vai muito além da supressão de incêndios para abranger toda a relação da sociedade moderna com a floresta. Além disso, esse relacionamento ruim gera muitas das condições pelas quais os políticos progressistas culpam as mudanças climáticas. Em certo sentido, eles também estão certos, exceto que a mudança climática abrange muito mais do que o aquecimento global induzido pelos gases de efeito estufa, e é tanto uma consequência quanto uma causa da degradação florestal.

 

Reverência e Relacionamento

Embora engenheiros, ecologistas e especialmente povos indígenas possam oferecer técnicas para administrar adequadamente as florestas e restaurá-las à sua resiliência, a transição para um mundo curado (healed) requer algo muito mais profundo do que melhores técnicas. Mais importante é aprender a incorporar a fonte de onde surgem as práticas de gestão de terras indígenas. Essa fonte é uma maneira de ver, conceber e de se relacionar com a natureza. É também uma forma de nos compreendermos: quem somos e porque estamos aqui.

 

Fundamentalmente, a fonte de sabedoria do manejo florestal é ver e conhecer a natureza como um ser, não uma coisa. É o melhor que posso dizer, mas não é bom o suficiente. As próprias palavras me induzem ao erro. A natureza não é algo separado de nós mesmos, e nem mesmo “coisas” são apenas coisas. Deixe-me dizer então que as culturas tradicionais e indígenas vivem em um mundo onde o ser está em toda parte e em tudo, e os humanos não são mais nem menos sagrados do que as árvores, montanhas, água ou formigas.

 

No nível mais óbvio, a visão da natureza como coisa facilita muito o corte raso, mineração, extração e lucro, assim como a desumanização de outras pessoas permite sua exploração e escravidão. É o mesmo modelo mental básico. Mas também há outro problema: a mentalidade da natureza-como-coisa nos impede de entrar na intimidade do relacionamento que é necessário para cuidar, curar e co-criar com ela para benefício mútuo. É como a diferença entre um médico que o trata impessoalmente, como um “caso”, e aquele que o vê como um ser humano pleno.

 

No mês passado, o estado da Califórnia se comprometeu com um programa de desbaste florestal de 20 anos que visa reduzir incêndios por meio de derrubada de mato, extração de madeira e queimadas prescritas. Este programa está repleto de possíveis consequências não intencionais. Quando entendemos uma floresta como um organismo, um ser, em vez de um objeto de engenharia, reconhecemos conceitos de engenharia como a redução de combustíveis florestais como, na melhor das hipóteses, um primeiro passo. Afinal, uma floresta saudável requer matéria vegetal em decomposição para nutrir fungos, invertebrados etc. que são elementos cruciais da ecologia florestal. Como sabemos quanto mato (brush) limpar e quantas toras remover? Só podemos aprender isso através da observação atenta e de um longo relacionamento. Aqui, a experiência dos povos nativos (indígenas) locais pode ser inestimável, pois eles acumularam esse conhecimento ao longo de inúmeras gerações. Aprender com os erros inevitáveis ​​que ocorrerão no programa de desbaste da floresta exigirá humildade, o tipo que surge quando se sabe que está se relacionando com um ser vivo complexo. Caso contrário, tropeçamos de um erro para o outro, assim como quando, no esforço de aumentar o sequestro de carbono, plantamos árvores ecológicamente e culturalmente inadequadas que acabam morrendo algumas décadas depois, deixando as condições ainda piores do que antes.

 

Outra palavra para a atitude que citei como a fonte da qual surgem as práticas de gestão de terras indígenas é “reverência”. Reverenciar algo é o oposto de reduzi-lo a uma coisa. Pessoas modernas e educadas viveram muito em uma matriz ideológica que diz que a natureza, no fundo, é meramente um turbilhão de partículas genéricas sacudindo de acordo com forças matemáticas. O que há para reverenciar? Diz que propósito, inteligência e consciência subsistem apenas nos seres humanos. O incêndio do mundo nos chama a despertar dessa ilusão.

 

Pela atitude de reverência, vemos coisas invisíveis aos olhos do engenheiro. Fazemos perguntas que o utilitarista nunca faz. Paradoxalmente, no final, o conhecimento assim obtido serão mais úteis – não apenas para a floresta, mas para nós mesmos – do que qualquer coisa que poderíamos realizar com a mentalidade exploradora.

 

Na verdade, não estamos separados da natureza. O que fazemos ao outro, em última análise, fazemos a nós mesmos. Quando as florestas estão doentes, estamos doentes. Quando elas queimam, mesmo que escapemos das chamas, algo queima dentro de nós também. O clima social reflete o clima geológico. Podemos não reconhecer essa verdade como os indígenas reconhecem, mas somos a terra. Não é óbvio, olhando para o cenário político de hoje, que um incêndio está fora de controle?

 

Não consigo estabelecer facilmente uma conexão causal aqui, mas parece significativo que incêndios florestais incontidos sejam contemporâneos de retórica inflamada, debates acalorados, temperamentos inflamados, ódio ardente, desconfiança fervilhante e ressentimento latente. Assim como as florestas secas e carregadas de material combustível queimaram fora de controle com uma simples faísca, assim também nossas cidades queimaram quando a centelha de assassinatos da polícia atingiu o combustível de gerações de racismo; décadas de decadência econômica e meses de confinamento em Covid. Nosso ecossistema social está tão danificado e esgotado quanto as florestas que são tão sujeitas ao fogo. A matriz de relações complexas que chamamos de comunidade desabou em grande parte em relações simplificadas com instituições impessoais, mediadas por dinheiro e tecnologia. As redes sociais podem dar a aparência de comunidade, mas carecem da interdependência que marca uma comunidade real (ou ecossistema). Podemos ver agora como essa sociedade é frágil – ou inflamável.

 

Não serei ousado a ponto de dizer que abordar nossa separação social apagará os incêndios. No entanto, pode-se ver como o projeto de cura da terra por meio da reverência e do relacionamento é congruente com o projeto de cura social, que também depende da restauração da reverência e do relacionamento.

 

A Porta de Entrada Chamada Encantamento (The Doorway Called Enchantment)

 

Eu moro no nordeste da terra que as pessoas chamam de Estados Unidos. Aqui, o fogo ainda não é uma grande ameaça. Algumas semanas atrás, eu estava caminhando com meu irmão na floresta atrás de sua fazenda na Pensilvânia, onde o terreno inclinado dá lugar à encosta da montanha. Cruzamos um riacho, um filete nu em alguns lugares e seco em outros. John me contou que esteve aqui com um veterano que disse que, em sua juventude, este riacho era tão profundo e forte, mesmo em agosto, que havia poucos lugares onde se podia atravessá-lo. O que aconteceu com esse ser, esse riacho? Alguns moradores dizem que é porque muitos poços foram cavados, baixando os lençóis freáticos e secando as nascentes que alimentam os riachos. Outros dizem que é por causa do corte repetido da montanha, que remonta à época colonial. Ou talvez, pensei, seja novamente um resultado demorado da cascata de mudanças que se seguiram ao extermínio de lobos, pumas e castores. Todas essas atividades são um insulto à terra e à água, alheios à reverência.

 

Em última análise, para parar os incêndios e entrar no caminho da cura do mundo, devemos passar da dominação e subjugação à reverência e respeito. Às vezes, isso significa assumir o papel de protetora de seres vulneráveis ​​e preciosos, como Marina Silva está fazendo no Brasil. (Aqui está uma organização com a qual ela trabalha, junto com outras que mencionei em meu artigo de 2019 sobre os incêndios na Amazônia.) Às vezes, significa assumir o papel de nutridor ou curador, como as pessoas reintroduzindo castores, praticando agricultura regenerativa e construindo paisagens de retenção de água. Para alguém no mundo corporativo ou financeiro, a reverência pode levá-lo a escolher a vida ao invés do lucro em um momento em que é necessário um pouco de coragem para fazer isso. Essa coragem é uma versão diluída da coragem de ativistas indígenas sul-americanos que correm o risco de serem torturados e assassinados por proprietários de terras, madeireiras, mineradoras e seus paramilitares, porque coloca algo mais acima da maximização do interesse pessoal. É, portanto, um importante ato de solidariedade.

 

A reverência traz coragem. A reverência traz conhecimento. A reverência traz habilidade. A reverência traz cura. É o fulcro da grande virada da civilização em direção ao reencontro com a natureza. Hoje a palavra tem conotações religiosas, mas esse não é o tipo de reverência que adora um ídolo. É a reverência do amante que olha nos olhos da amada e vê o infinito.

 

Se a reverência traz todas essas coisas, então o que traz reverência? Não basta apenas exortar as pessoas a serem mais reverentes. A porta de entrada para a reverência é o encantamento. Há alguns dias, estive com meu filho Cary, de sete anos, no último lago costeiro não desenvolvido de Rhode Island observando tartarugas. Sentimos o que é ser aquelas tartarugas. Mal podíamos parar de observá-las. Naquele momento, o pensamento de que iríamos prejudicá-las por qualquer coisa menor do que um propósito sagrado era horrível e absurdo. Nós as conhecíamos como preciosas em si mesmas, e não para qualquer uso para nós. Poucas pessoas, sentindo aquele momento, poderiam escapar daquele encantamento. No entanto, todos os dias, participamos de sistemas que tratam as tartarugas e muito mais como recursos a serem explorados, ou que as transformam em danos colaterais em outra exploração. Não podemos evitar essa participação, pois vivemos nesse sistema, e esse sistema vive em nós. Cada vez mais, pessoas como nós, não se sentem mais à vontade com esse pensamento. Ele não pode acomodar facilmente nossa reverência, nosso encantamento e nosso verdadeiro propósito de servir à vida.

 

Executivos de mineradoras ou membros de esquadrões da morte a serviço de fazendeiros podem estar muito longe da porta do encantamento. O princípio da reverência gerada pelo encantamento não substitui a ação legal, a ação direta não violenta e assim por diante. No entanto, um planeta curado não resultará de uma sucessão de ações desesperadas de contenção. Precisamos nos basear na experiência direta da Terra, obviamente tão preciosa quanto as tartarugas foram para Cary; conhecê-la como ser e como organismo, e precisamos difundir esse conhecimento. Então, teremos a clareza, a coragem, a habilidade e, o mais importante, os aliados em lugares improváveis, para defender suas partes vulneráveis, para preservar e fortalecer seus órgãos e para fazer a transição de sistemas construídos na mitologia da Terra-como -coisa.

 

Charles Eisenstein – Setembro de 2020

 

(traduzido por Alan Dubner)

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e… onde estamos?

O primeiro Golpe Militar foi em Novembro de 1889 e levamos 5 anos para eleger o primeiro presidente da República. Em 64 a ideia também era essa, devolver a presidência em 66, porém… sempre tem um porém, levamos 25 anos (do Golpe) para eleger nosso presidente. A eleição ocorreu 6 dias após a queda do muro de Berlim. O vencedor foi o Collor… lembrando que em 85 foi eleito indiretamente o Tancredo Neves… porém, pois é porém… quem assumiu foi o Sarney. Vale também lembrar que em 1993 fizemos um plebiscito para definir se queríamos o regime Republicano ou Monarquista, regido por um sistema presidencialista ou parlamentarista. Foi somente em 1994 (30 anos depois) que o Brasil, na minha visão, começou a trilhar um novo rumo. “Porém”… os últimos anos foram muito tristes em relação as nossas riquezas. O meio ambiente foi agredido de uma maneira que entrará para a história como um dos piores momentos desse século. Quem está acompanhando de verdade o andamento das mudanças climáticas sabe do que estou falando. A questão da corrupção nunca esteve tão escancarada e sem qualquer pudor. A política está completamente desacreditada… o Rei está nú! O turismo poderia ser uma ótima fonte de recursos, mas nossos números são ridículos. Na educação estamos em 88º lugar no mundo.

O que podemos esperar para as eleições daqui a 6 meses? Um milagre? Já imaginou se o Fernando Henrique e a Marina Silva saíssem como candidatos à presidência. Sim teríamos uma esperança de um Brasil melhor! O que fazer em relação à Copa do Mundo? Deixar o coração livre e torcer para que o nosso verde-amarelo vença? Ou respirar fundo e agir de forma cívica para que o pão e circo não encubram os atuais mandos e desmandos? Como ficou a manifestação de junho de 2013? Ainda tem alguma brasa ardendo?

Hoje 1 de abril de 2014 estamos tirando dos baús os acontecimentos que ocorreram há 50 anos atrás e até hoje vivemos suas consequências. O primeiro período de 64 até o AI5 que em 68 instaurou a fase mais negra da nossa história e depois de 78 onde se iniciou um retorno lento à democracia. O que é Democracia? Quem realmente sabe o que é isso? Li um artigo interessante, apesar de tendencioso, na The Economist que tem como título: “O que deu errado com a Democracia?” http://econ.st/Oc1HZ9. Nos faz pensar, assim como varias leituras que estão pipocando nas livrarias. Acabo de ler o “Minha Vida de Terrorista” do Carlos Knapp que nos convida a uma viagem pelos 10 anos (69/79) em que se viu na clandestinidade do Regime Militar. Muito bom! São tantas histórias, tantos lados da história… Como será contada a história que estamos vivendo agora, daqui a 50 anos?

Alan Dubner

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O novo encontro da Nova Política com a Marina Silva, em 27/10/2011, promovido pelo IDS (Instituto Democracia e Sustentabilidade) com o tema Política 2.0 foi uma afirmação de que as Eleições de 2012 terão as mídias sociais como importante fator de decisão. Ricardo Young abriu o evento com uma fala forte de estamos vivendo um momento histórico. Fez uma retrospectiva e abriu para a divulgação da pesquisa “Política Cidadã” deu o pano de fundo para o debate mediado pelo Ricardo Abramovay com a presença da Carla Mayumi que trouxe ótimos elementos da pesquisa “Sonho Brasileiro” realizados com jovens para entender como “enxergam” o país e sua atuação no futuro; Giuseppe Cocco que trouxe elementos sobre o papel da corrupção e suas relações com a política e a sempre inspiradora Marina Silva que simboliza a possibilidade dessa Nova Política. Foram também convidados a entrar com 5 minutos no debate Eduardo Rombauer, Oded Grajew, Chico Whitaker, Ladislau Dowbor e outros que deram boas contribuições. Mais um passo foi dado rumo à Nova Política. Estamos fazendo história! Perguntou-se muito sobre o “como” podemos agir… vejam o depoimento final da Marina Silva. Desculpem acabou a bateria nos últimos 30 segundos de sua fala. Vamos à NOVA POLÍTICA!

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42% dos eleitores não votaram nem na Dilma e nem no Serra. Eles definirão os resultados para o segundo turno!

Eu tinha certeza que as mídias sociais definiriam as eleições deste ano. Errei feio! O que aconteceu? Seria fácil tentar achar alguma desculpa “esfarrapada” de que o Brasileiro não está pronto (porque ainda vota em Tiririca) ou de que os institutos de pesquisa ainda conseguem induzir o eleitorado para o lado de suas “previsões” (profecias auto-realizadas). Mas a verdade é que fomos incompetentes em formar redes que liderassem esses movimentos nas mídias sociais. Não estou tirando o mérito das centenas de iniciativas que fizeram a Marina Silva ser a estrela dessa eleição. Estou apenas me referindo ao tempo (timing) que seria necessário para que a tivessem conduzido ao segundo turno. Impossível apressar as sementes! Elas deveriam ter sido plantadas, com a motivação dos últimos 60 dias, no ano passado para obterem seus frutos nesse ano. Já pensaram o que seria ter a Marina no segundo turno? O importante é que essas sementes ainda estão germinando e produzindo florestas. Acredito num Brasil melhor liderado por seus cidadãos! Essas eleições estão sendo o primeiro passo de um movimento (sem volta) que vai renovar os políticos e suas instituições. Uma Nova Política!

Tenho certeza que mesmo àqueles que deixaram de votar no que seu coração dizia para escolher racionalmente (ou irracionalmente) um candidato mais “vantajoso”, deve estar revendo seus valores internos. Deve estar até revendo a sua “matemática” por ter, ingenuamente, acreditado no voto útil.  Teve até quem chegasse a dizer, por total falta de informação, que o vice da Marina era um “capitalista selvagem” (recomendo matéria do Marcos Sá Corrêa na revista Piauí de Setembro). A festa é da Marina Silva e daqueles que acreditaram num movimento e não num candidato. O Brasil é governado por muitas pessoas, grupos e instituições. Será cada vez mais governado pelo cidadão. Já começou!

Entenda os números do resultado das eleições desse ano. O Brasil tem 135.804.433 eleitores, dos quais 35,08% votaram na Dilma; 26,76 % não votaram em ninguém; 24,39% votaram no Serra; 14,46% na Marina e menos de 1% nos outros 6 candidatos.

O que isso quer dizer? Estamos em busca de uma Nova Política?

Desmembrando os números:

135.804.433 total de eleitores

Lembrando que estamos falando de uma população total de mais de 192 milhões de habitantes.

24.607.571 abstenções 18,12%

3.479.255 brancos 3,13%

6.123.858 nulos 5,51%

Ou seja a maioria dos 26,76% de eleitores Brasileiros escolheram não votar em algum candidato para a presidência!

47.649.079 votaram na Dilma  35,08% dos eleitores (46,91% dos votos válidos)        

33.130.514 votaram no Serra 24,39% dos eleitores (32,61% dos votos válidos)        

19.636.000 votaram na Marina 14,46% dos eleitores (19, 33% dos votos válidos)        

     886.800 votaram no Plinio 0,65% dos eleitores ( 0,87% dos votos válidos)        

     283.253  votaram nos outros 5 candidatos 0,21% dos eleitores ( 0,28% dos votos válidos)    

Tudo isso para dizer que estamos falando de um contingente de eleitores que irá decidir o segundo turno. Trata-se de 42,08% que pode votar ou não em um dos candidatos.

Temos mais 27 dias para nos MOVIMENTAR!!!

Boa sorte à todos nós, ao Brasil e ao planeta!

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Publicado em 05/11/2009 no itu.com.br

Tenho certeza que a Mídia Social vai definir as eleições de 2010. Essa frase é parecida com uma afirmação que fiz, em julho de 2008, onde eu usava a palavra “Internet” no lugar de “Mídia Social”. Apesar da opinião dos nossos principais especialistas em política, que estavam no evento “Efeito Obama” em meados de outubro, eu acredito que teremos no Brasil um impacto parecido com o das eleições americanas de 2008. Os analistas políticos colocam muitos “porém”, “por causa disso ou daquilo”, mas na verdade não sabem do que estão falando porque ninguém sabe. Se você conseguir ir até o final desse texto terá uma boa ideia do porque dessa minha certeza.


Eleitorado Adormecido
Vamos começar pelo final, daqui a 11 meses, no dia 4 de outubro de 2010. Os eleitores Brasileiros vão escolher, através de suas próprias consciências, o que fazer. Primeiro devem avaliar se vão votar ou justificar, depois definir se há um candidato de sua preferência (mesmo os que não votarão). Essa simples equação terá passado por um complexo sistema de decisão até chegar na ação de votar.
 
Agora vamos voltar para trás e perceber claramente porque a mídia social vai alterar a balança em seu favor. Na última eleição presidencial o Lula obteve 46.662.365 votos no primeiro turno enquanto o Alckmin 39.968.369. Percebam que a diferença entre eles foi de 6.693.996 votos. As pessoas que resolveram anular o voto somaram 5.957.207 votos, apenas 736.789 a menos que a diferença. Outros 2.866.205 votaram em branco. O que realmente surpreende são os eleitores que optaram por não ir às urnas, 21.092.511.
 
No segundo turno não foi muito diferente: 23.914.714 de eleitores não compareceram às urnas, 4.808.553 anularam seu voto e 1.351.448 votaram em branco. Nas eleições anteriores (2002) também não foi diferente. Tivemos, no primeiro turno, 20.449.690 de eleitores que resolveram não votar enquanto o Serra recebeu apenas 19.705.061 de votos, além dos 6.976.107 votos nulos e 3.873.720 brancos. No segundo turno não compareceram às urnas 23.589.188 de eleitores enquanto 3.772.138 anularam e 1.727.760 votaram em branco.
 
Em 1998 foram 22.802.823 abstenções enquanto o Lula recebeu apenas 21.475.211 votos. As abstenções mais os nulos (8.887.091) e os brancos (6.688.371) somaram 38.378.285 enquanto Fernando Henrique Cardoso venceu a eleição, no primeiro turno com 35.936.382 votos.
 
Em 1994 as abstenções, nulos e brancos somaram 31.409.533. Enquanto Lula recebia 17.126.291 votos, FHC venceu com 34.377.198 votos. Ou seja, há um gigantesco espaço de insatisfação com o atual modelo político que leva um grande contingente de pessoas a anular o voto, deixar em branco e principalmente nem comparecer para votar.
 
Se as pessoas realmente se motivarem a ir às urnas, se aqueles que protestam anulando seu voto encontrarem alguém merecedor, se os indiferentes perceberem a diferença e os jovens de 16 e 17 anos aderirem ao movimento… Ficou clara a diferença que pode fazer a mídia social através de um movimento colaborativo com um candidato que possa ser um símbolo dessa nova política?

Primeira Pegada
Em junho desse ano, atravessando a Serra da Bocaina com um grupo de amigos ambientalistas, eu tive 4 dias para explicar o que era Mídia Social e porque teria uma importância tão grande nas eleições de 2010. Normalmente, tenho apenas 1 hora numa palestra ou mais algumas em reuniões e conversas, mas ali estávamos em outro ambiente, em outro tempo. Entre as minhas questões para o Brasil estava o fato de que, tristemente, os candidatos conhecidos não tinham o perfil para ativar a Mídia Social. Lamentei também que, aparentemente, não estavam vendo o poder dessa ferramenta de cidadania e estavam sendo orientados por profissionais que não sabem o quanto não sabem. Falei que não me surpreenderia se aparecesse alguém totalmente novo que já vinha se preparando desde o início do ano e não aparecia no radar. Aquele diálogo fez com que um deles entendesse claramente do que se tratava e disse que existia um candidato com esse exato perfil: a Marina Silva.
 
Importante registrar que isso aconteceu no dia Mundial do Meio Ambiente (5 de junho) a 1.600 metros de altitude no Pico do Gavião do Parque da Serra da Bocaina.
 
Demorei a entender porque a Marina Silva poderia ser “a” candidata. Já tinha recebido alguns e-mails de pessoas fazendo algum tipo de campanha com o nome dela. O maior problema era ela ser do PT, que além de representar justamente o que precisa ser mudado, tinha muitos pontos impossíveis de contornar para contarmos com a Mídia Social. Quanto mais eu entendia quem era a Marina, mais claro ficava que ela era “a” pessoa para representar esse movimento. Só o que ela já produziu de ações de sustentabilidade para o cenário dos candidatos e do país já lhe permite receber créditos pelas suas pegadas ecológicas. 
 
Hoje acredito que temos uma ótima possibilidade de agregarmos todas as tribos e juntos co-construirmos um Brasil de muitos “Brasis”, cuidado por todos nós. Essa eleição extrapola as fronteiras nacionais. Ela é importante para todo o planeta. Que a miopia, temporária, dos especialistas políticos não nos desanime de “entrar nessa” agora mesmo!

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