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Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Primeiro de Abril

Esse texto faz parte do livro que estou escrevendo. Em cada primeiro dia do mês escrevo uma carta, no próprio dia, que será publicada no capítulo de uma retrospectiva do período em que estou escrevendo esse livro. Segue a carta relativa ao mês de março de 2021:

Foi no dia 1º de abril de 2020 que comecei a publicar minhas cartas mensais. Será que alguém teria a mínima condição de imaginar que estaríamos onde estamos hoje, um ano depois? Lembram-se que em março de 2020 estávamos adiando os eventos presenciais? Falávamos em dois ou três meses… alguns mais pessimistas adiavam para o segundo semestre de 2020. Quem acreditaria que um ano depois estaríamos muuuito pior. Há um ano, em março, passamos a primeira quinzena acreditando que não havia vítimas fatais. No mês de março de 2020 tivemos notificados 201 óbitos no mês inteiro. Enquanto apenas hoje (quinta-feira) tivemos 3.769 óbitos notificados, só nas últimas 24 horas!  

Nos últimos dois dias tivemos notícias de mais absurdos na política – não dá para se acostumar – e notícias de mais destruição de nossas florestas. Com a pandemia desacelerando a devastação das florestas… o Brasil conseguiu, novamente ficar em primeiro lugar no ranking mundial (segundo dados da plataforma Global Forest Watch do WRI anunciados ontem) aumentando em 25% a destruição das florestas em 2020 em comparação com o ano anterior (que foi absurdamente alto). O Brasil destruiu três vezes mais que o segundo colocado no ranking. O resultado saiu nas principais mídias do mundo todo. Global Forest Watch: https://blog.globalforestwatch.org/data-and-research/global-tree-cover-loss-data-2020https://blog.globalforestwatch.org/data-and-research/global-tree-cover-loss-data-2020

 Voltando a carta de abril, de um ano atrás, escrevi que estávamos vivendo sintomas de incontinência virtual e esperava que não piorasse mais. Mal sabia que isso teria múltiplas consequências, se agravando cada vez mais até os dias de hoje.

Nessa carta também apresentei algumas visões do que eu via se desenhando no horizonte para iniciarmos a próxima década, que começou em primeiro de janeiro de 2021. Reli cada uma das visões e as mantenho tal qual foram escritas.

– A medicina vai finalmente evoluir para cuidar prioritariamente da prevenção ao invés das doenças. Vai se tornar amplamente colaborativa e completamente sem fronteiras. Levará em conta ciência, tecnologia e principalmente culturas. Cuidará fundamentalmente do DNA ao estilo de vida, da alimentação ao ar que respiramos, da meditação à movimentação, da autoestima à psicologia.

– A economia não conseguirá manter seu atual modelo estrutural. O jogo já mudou! Quem tentar jogar com as regras antigas logo perceberá que terá que se tornar alguém detestável para si mesmo e para os outros. Poucas pessoas ficam confortáveis nessa posição. O medo e a insegurança com a sobrevivência vão retardar o pleno funcionamento de uma economia com uma cultura de Gift.

– As escolas nunca mais serão as mesmas. Vamos finalmente sair das metodologias do século XIX para entrar nas condizentes com o século XXI. Quem poderia imaginar que os sistemas de aprendizagem iriam dar esse salto quântico através desse artifício? Quem diria que o conhecimento não estaria mais atrelado a memória e sim a sabedoria? A Educação será livre, com janelas sem salas, com notas de músicas, com folhas da natureza e principalmente com muito amor.  

– A política dos políticos ainda sobreviverá mais algumas primaveras enquanto houver a crença de que o sistema eleitoral tem alguma coisa a ver com a democracia. A política vai migrar dos políticos para a sociedade civil. E as políticas públicas serão decididas pontualmente através da participação dos interessados devidamente qualificados. Em pouco tempo os políticos serão substituídos por uma nova geração de políticos conectados com a sociedade civil.

– A religião, no geral, terá dificuldades de manter o véu da ignorância como força motriz da maioria de seus seguidores. Apesar da imensa fome por algo que explique o inexplicável, por um sabor de pertencimento, por um alimento para a alma… a busca será mais ouvindo a voz de dentro do que a palavra dos gurus. Você, finalmente, será seu próprio guru!

Esses cinco pontos continuam fazendo parte da minha visão que foram ampliados nesse livro.

Aniversários:

Hoje, 1º de abril, o Psicodrama faz 100 anos! Joseph Levy Moreno, criador da técnica terapêutica do Psicodrama é também pai de muitas ideias e inovações que estão hoje integradas em nosso dia a dia e nem nos damos conta. A terapia de grupo foi uma de suas contribuições mais significativas a todas as terapias. A Socionomia, ou estudo das relações é a mãe das redes sociais de hoje. Pois é… Facebook, Instagram, Google, Twitter, Whatsapp tem tudo a ver com o Moreno. Procurem por Sociodinâmica, Sociometria e Sociatria. Dizem que em 1912 num encontro com Freud, lhe disse que enquanto ele (Freud) analisava os sonhos, ele (Moreno) dava coragem para sonhar e novo.  

A Federação Brasileira de Psicodrama (Febrap) editou um vídeo para celebrar os 100 anos do Psicodrama: https://youtu.be/LAFFreYwHHY

Em março saiu o livro Psicodrama Virtual, com vários autores em que fui convidado para escrever um capítulo. O Psicodrama em si é virtual e por isso acredito, pelo que vivenciei nesse último ano, no que o JL Moreno dizia: que o Psicodrama no século XXI será a terapia que a Psicanálise foi para o século XX. Sou um apaixonado pelo Psicodrama!  

Hoje, 1º de abril, é o aniversário do segundo Golpe Militar do Brasil realizado em 1964. Apesar de ainda existirem pessoas acreditando na versão editada, João Goulart ainda estava no poder na manhã do dia primeiro. O golpe (ou revolução) só acontece quando o governante é deposto. Não importa se houve alguma movimentação no dia anterior, na semana anterior ou mesmo no ano anterior com a gravação do John Kennedy insinuando uma intervenção militar no Brasil. A questão de inventar uma mentira para escapar do dia da mentira é de uma ironia histórica. Mudar uma data histórica para acomodar qualquer que seja a narrativa é um gesto, no mínimo, desonesto. Não podemos mudar a data da queda do muro de Berlim, das Torres Gêmeas ou de qualquer outro acontecimento histórico.

Precisamos também entender que há militares e militares. Dizer simplesmente “militares” seria o equivalente a dizer “Cristãos”. Há Cristãos Evangélicos, Católicos, Protestantes… e muitos outros. Dentro dos Evangélicos tem também outras divisões. Portanto temos que ter cuidado para não generalizarmos os militares… com o perdão do trocadilho.

Encerro esse texto desejando que possamos ultrapassar as fronteiras que nos limitam. Que possamos ampliar a consciência para perceber o quanto não sabemos… e que tudo bem! 

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Primeiro de Março

Esse texto faz parte do livro que estou escrevendo. Em cada primeiro dia do mês escrevo uma carta, no próprio dia, que será publicada no capítulo de uma retrospectiva do período em que estou escrevendo esse livro. Segue a carta relativa ao mês de fevereiro 2021:

Reli o texto que escrevi em primeiro de março de 2020. Foi numa outra era. Você consegue se lembrar como e onde você estava em primeiro de março de 2020? Não me refiro a março de 2020 e sim ao dia 1º de março de 2020. Ou seja, antes de ser decretada a pandemia, antes da primeira morte no Brasil, antes de qualquer indício real de que o mundo inteiro iria parar. Ao mesmo tempo, pouquíssimo tempo antes de tudo isso acontecer. Vou reformular a pergunta: Você consegue se lembrar quem você era em primeiro de março de 2020?

Vou reproduzir o início dessa carta que é no mínimo… curiosíssima.

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“Hoje, primeiro de março de 2020

A semana do Carnaval termina hoje e amanhã é quando, pejorativamente, se diz que o Brasil começa a trabalhar. A questão da sustentabilidade nunca esteve tão mal e olha que já esteve inacreditavelmente mal nos últimos 10 anos. O que será necessário para que esse jogo vire no Brasil e nos EUA? O principal é saber que TODOS nós podemos fazer alguma coisa, por menor que seja. Se ficarmos apenas reclamando estaremos sendo cumplices dessa tragédia.    

Na carta de fevereiro subestimei o possível impacto do novo Coronavírus no mundo. Não havia casos de mortes fora da China e nem nome o vírus tinha. Mantenho a ideia de que as mídias vêm gerando um pânico que em nada ajudam. Acredito, também, que já estamos num estado de pandemia apesar de não ter sido declarado ainda. Em 27 de janeiro escrevi no WhatsApp respondendo para minha filha (grávida) que perguntava se eu tinha alguma orientação quanto ao novo coronavírus. Respondi:

Todo ano tem algo assim.

Eu ainda não estou nem um pouco preocupado. Se isso mudar te aviso.

Um dia um deles (vírus) vai ser uma pandemia. Não acho que será esse. De qualquer maneira a melhor coisa a fazer é ficar fisicamente bem… muito bem!  Dormir bem, não “comprar” situações de stress, tomar meio limão por dia e umas 20 a 30 gotas de própolis por dia. O grande problema do coronavírus, ao contrário dos outros, é que ele é contagioso quando ainda não saíram os sintomas… ou seja duas semanas antes dos sintomas aparecerem. Se acontecer (acho improvável) de conhecer alguém que conhece alguém infectado precisa ficar longe do networking (rede de relacionamentos) dessas pessoas e os cuidados da saúde serem de uma pessoa paranoica por, pelo menos um mês depois que soube.

No mesmo dia 27 de janeiro, só lembrando que 99% dos 2.800 casos estavam na China e que os EUA tinham apenas 5 casos (reportados), nenhum em Nova York e todos de pessoas que vieram de Wuhan/China, minha filha perguntou se eu achava que era suave ela ir para Nova York.

Por enquanto sim. Se o negócio se espalhar de uma forma perigosa deve rolar de março para abril. Os números estão subindo dessa maneira assustadora, mas é que acabaram de identificar o vírus e os casos estão emergindo (ficando visíveis). Acredito que será contido. De qualquer maneira VOCÊ deve viajar de máscara. Menos pelo risco desse vírus e mais pelo risco dos outros 50 que estão sendo espalhados diariamente. Nenhum perigoso em si, mas vários tem indicação de antibióticos e outras medicações desaconselháveis para minha neta.

Vale a pena passar o desconforto ou vergonha. Não é um custo alto a pagar pela prevenção. Declare que você não está doente, mas está grávida e não quer pegar uma gripe ou virose. Ordens do seu médico! Aliás fale com ele. Deve estar muito mais bem informado do que eu.

Poucos dias depois, no dia 3 de fevereiro onde um dos infectados nos EUA estava recebendo alta do hospital. As mortes tinham crescido de 83 para 426, sendo que 425 da China (maioria da província de Hubei) e uma nas Filipinas sendo que era um Chines de Wuhan (província de Hubei) de 44 anos que tinha se infectado antes de chegar nas Filipinas. Escrevo recomendando que não faça a viagem, mas não pelo perigo do novo vírus.  

Acredito que a mídia está causando esse pânico. Só se fala nisso. Para os governos é ótimo desviar a atenção do Brexit, da ameaça nuclear, do impeachment, dos descalabros no Brasil, do Bibi, do sarampo, das mudanças climáticas e de tantas outras coisas realmente importantes. Continuo achando que se houver perigo será a partir de abril. Continuo achando que pelo contágio ter que ser direto (gotículas quando fala ou tocar coisas que receberam essas gotículas) é muito fácil se proteger nesse estágio da doença. Álcool gel muitas vezes. Prestar atenção para não levar as mãos a boca. Enfim acho que não há risco real. PORÉM… acho que há risco de pegar um resfriado ou uma virose. PORÉM… como está esse pânico no ar, qualquer sintoma vai gerar um medo no grupo e no entorno.

Acredito que com esse nível de medo vocês não deveriam ir. A razão é psicológica e não por um perigo real. Mas é uma razão válida!

Você talvez passe por um stress desnecessário se alguém pegar um resfriado.

Minha humilde opinião é que vocês não deveriam ir.

O que preocupa são as declarações e as possíveis medidas que tomarão os governantes dos EUA e do Brasil, que atualmente estão fazendo pouco caso do assunto.

Embarco nessa quarta para o México (Durango) para participar do World Sustainable Development Forum (WSDF 2020) que além da importância do evento que segue na direção da implementação do acordo de Paris e das ODS, deverá homenagear o organizador e importante ambientalista Rajendra Kumar Pachauri. Muitos encontros e projetos estão sendo costurados desde a Cúpula do Clima em setembro passado em Nova York. Tenho esperança! Esperança do verbo esperançar!

“É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…” Paulo Freire

O mês de fevereiro foi particularmente….”

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Voltando ao primeiro de março de 2021, fico especialmente emocionado de reler a carta que escrevi para esse livro porque revela a minha completa falta de percepção da dimensão do que vinha vindo e ao mesmo tempo revela as pedras que deixei no caminho até aqui. Foi só no mês seguinte (abril) que passei a publicar (sem divulgar) essas pedras em forma de palavras e ideias que me acompanham nesse caminho que estou compartilhando.

No dia 11 de fevereiro celebrei os 30 anos de encontro com a minha cara-metade. Com certeza a coisa mais importante que aconteceu na minha vida. Agradeço a muita coisa dessa vida que foi muito generosa comigo, encontrar a Deborah foi uma iluminação que gerou e gera o viver a vida. Viver a Vida em versão original! Esse é também o título do livro que conta a nossa história e que nesse mês ganhou um formato digital. Fiquei na dúvida de escrever a palavra “coisa”, existem preconceitos com ela. Olhando rapidamente no Ecosia (a versão ecológica do Google que sempre uso) descobri o quanto ela é versátil e tem muuuuitos significados. Ela pode ser substantivo, adjetivo, advérbio e até verbo. O significado que mais encontrei foi: “Tudo o que existe ou que pode ter existência”. Não é demais? Portanto mantenho que encontrar a Deborah foi a coisa mais importante da minha vida!

Hoje de manhã, assisti ao Davos Lab Brasil na TV Folha. Foi muito bom! O que sempre me impressiona são aquelas pessoas que ficam no chat jogando palavras de ódio. Elas entram para isso! O que faz alguém entrar num evento que não aprecia e ficar falando mal de tudo e de todos? Com tanta coisa importante para fazer o que faz alguém perder tempo e energia com isso? Vamos excluir as pessoas que se submetem (banalidade do mal) a receber dinheiro para fazer atos destrutivos e aos robôs programados para isso. Ainda resta uma quantidade enorme de pessoas que covardemente, em seu anonimato, insistem em disseminar vibrações negativas. Existem pessoas que preferem torcer para que o time do outro perca do que o seu ganhe. Estranho, né? Vota num outro candidato para que o que não gosta perca. Sim, parece surreal, mas é a realidade! Uma pessoa escolhe um candidato de sua preferência, mas não vota nele porque acredita que deve votar no candidato que as pesquisas mostram que tem mais chance contra um do qual é contra. Com isso, sempre ganha um candidato que não é o da sua preferência! Como pode uma coisa dessas ser boa para a democracia? Por que as pessoas, na sua maioria, escolhem ser do contra? Como elas fazem para se justificarem consigo mesmas? A resposta é reduzindo a dissonância cognitiva, através de artifícios imaginários (histórias). Essa é uma das abordagens deliciosas que apresento nesse livro.   

No mês passado deixei uma palavra no ar: Percepção! Acredito que ela seja a essência do que é esse livro. A nossa realidade – nossa mesmo – é moldada pelas percepções do que acreditamos.

Hoje comecei um curso sobre “Perspectivas”. O curso é baseado nas forças de caráter da Psicologia Positiva criada por Martin Seligman. A Perspectiva é uma força de caráter da virtude da Sabedoria. Aprendi hoje a definição que é “Ser capaz de oferecer conselhos sábios aos outros; ter maneiras de ver o mundo que façam sentido para si e outras pessoas.”     

Ggostaria de deixar um link para um vídeo do Yuval Harari falando (em inglês) para jovens de uma escola multicultural no Japão. Tenho tido o privilégio, por conta desses momentos da pandemia, de ouvir uma conversa dele toda semana. https://youtu.be/9drNVSuyp0w

O que me preocupa mais nesse momento da pandemia são os médicos e os profissionais de saúde da linha de frente. Eles já passaram do ponto de “não retorno” para o Burnout, estresse e outras enfermidades. Temos que olhar sistemicamente para cuidar dos cuidadores porque se continuarmos nesse ritmo, além da tragédia individual desses profissionais teremos uma falta desses heróis para atender a demanda.

Que a força esteja com vocês!

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Primeiro de fevereiro

Como é? 2020 não acabou?

A gente não estava atrelando 2020 com a pandemia?

Fico pensando como esse período vai entrar para a História. Claro que depende da linha do seu historiador favorito. Toda a História é contada de diversas maneiras, com narrativas e fatos próprios de quem conta. Como você vai contar essa história?

Eu, hoje, não conseguirei contar nada. O dia foi de mudança… literalmente de mudança. Estou com poucos minutos para cumprir minha promessa de escrever todo dia primeiro de cada mês, enquanto estiver escrevendo esse livro.

Hoje deixo uma palavra no ar: PERCEPÇÃO!

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Primeiro de Janeiro

Esse texto faz parte do livro que estou escrevendo. Em cada primeiro dia do mês escrevo uma carta, no próprio dia, que será publicada no capítulo de uma retrospectiva de 2020. Segue a carta relativa ao último mês de 2020:

Hoje, primeiro dia da terceira década do século XXI, me sinto como se o ano de 2020 tivesse durado uma década. O que foi esse ano? O que foi para você esse ano?

Será que alguém conseguiu entender o que realmente aconteceu? Como aconteceu? Como será que olharemos o ano de 2020 em primeiro de janeiro de 2031?

Vou ter que falar dos aprendizados com a própria pandemia. Não poderia ser diferente.

Algumas coisas “saltam aos olhos”. Em primeiro lugar quero enfatizar a nossa necessidade de acreditar em números, mesmo que saibamos que eles não sejam reais. A mídia passou a pandemia toda promovendo, diariamente, números que são sabidamente equivocados. Para que os números de casos, internações e mortes causados pelo Sars-CoV-2 fossem próximos do real, teríamos que ter uma combinação de fatores mensuráveis quase impossíveis hoje. Por exemplo teríamos que ter muito (mas muito mesmo) mais testes realizados; os testes teriam que ser confiáveis; as subnotificações precisariam ser contabilizadas; o viés econômico da saúde e da política precisariam ser contados ou descontados. O mais grave não é a geração e divulgação dos números e sim acreditarmos neles! Com isso, no mundo, estamos em segundo lugar em quantidade de mortes e em terceiro em números de casos. O que isso quer dizer? Nada! Simplesmente nada! A forma de contabilizar de cada país é diferente e só por isso não teria razão de ser em compará-los. Vamos fingir que os números estão corretos e são comparáveis só para pensarmos um pouco por outro ângulo do habitualmente divulgado pelas mídias. Se olharmos os números de mortes pela proporção de habitantes (o que deveria ser o mais justo), o Brasil iria para a 23ª posição, os EUA para a 14ª e a Índia para a 98ª. Em termos de testes realizados relativos à população, o Brasil está em 100º lugar. Vivemos momentos surreais com os números. No primeiro semestre ficamos apavorados com o crescimento vertiginoso das mortes que chegavam a mais de 100 por dia. No segundo semestre chegamos a nos acalmar com a estabilização de 1.000 mortes por dia… já podíamos respirar! Durante a eleição o vírus deu uma trégua… como assim? Agora em dezembro os números voltaram a subir, mas se não temos como compará-los com os meses anteriores…  Quanto mais nos aprofundamos nas métricas, mais percebemos que elas não significam o que acreditamos. Fica a pergunta: por que precisamos acreditar em números? O livro navega pelas diversas possíveis respostas. Os números devem variar a cada dia, usei um dos indicadores: o “Worldmeters” no dia 1 de janeiro de 2021. https://www.worldometers.info/coronavirus

A segunda coisa a “saltar os olhos” é quanto as recomendações sanitárias. Para alguns era apenas uma gripezinha, para outros o fim do mundo. Para alguns o uso de máscara era recomendado, para outros só os doentes. Para alguns o vírus era perigoso nas lojas, para outros nos parques. Para alguns as escolas deveriam fechar, para outros abrir. Vivemos em 2020 a maior confusão por parte do que fazer, como, quando e onde. O que ficou claro é que nada estava claro! As recomendações eram tão antagônicas que dificilmente mereciam ser levadas a sério. Mas o pior de tudo isso foi (e ainda é) a repugnante condição humana de aproveitar uma tragédia dessas para praticar ações criminosas em benefício próprio lesando a humanidade e o seu entorno. Desde “passar a boiada” até artimanhas de alguns laboratórios. Estamos num momento tão atípico que o conceito de “banalidade do mal” de Hannah Arendt fica evidente diante do medo e das incertezas de futuro. As pessoas se dissociam do seu papel de responsáveis pelas ações que cometem, sentem que não são cumplices do mal que suas ações contribuem. Alguém que trabalha numa indústria que produz agrotóxicos que vai contaminar consumidores, agricultores, o solo e as águas, não se sente responsável pelas consequências que suas ações, por menor que sejam, causaram. No geral, alguém trabalhando numa mineradora não sente responsabilidade quando um crime arrasa uma região do tamanho de Portugal ou mata centenas de pessoas. O mesmo ocorre com uma pessoa que apoia um candidato, ela não se sente responsável por ter colaborado, seja mais intensamente ou apenas com o voto. Impressionante como alguns até se opõe fortemente, com seus eleitos, como se não tivessem nada a ver com aquele resultado. Essa é a banalidade do mal que faz com milhões de pessoas colaborem com o mal sem se sentirem responsáveis por esse mal. As palavras de Martin Luther King “Teremos que nos arrepender, nesta geração, não apenas pelas palavras e ações odiosas das pessoas más, mas pelo aterrador silêncio das pessoas boas.”, se encaixam perfeitamente no que está sendo feito aproveitando o medo gerado pela pandemia. Isso está ocorrendo no mundo! O Brasil, lamentavelmente, se destaca nessa área.

A terceira e talvez a mais importante constatação é a da ditadura da polaridade. Ela existe há muitos anos e nos últimos seis vem crescendo exponencialmente através das manipulações da mídia, principalmente das mídias sociais. O início dessa modalidade de manipulação começou em 2014 nas eleições brasileiras, depois foram profissionalizadas em 2016 no referendum do Brexit (que aliás começa hoje), na eleição americana de 2016 e foi crescendo extraordinariamente a ponto de ser muito difícil separar o joio do trigo. A pandemia fez emergir a parte mais obscura desse fenômeno que é a imbecilidade de rebanho. Trata-se de uma simplificação do pensamento e a erradicação do diálogo. Nada de pensamento sistêmico ou de frescura com filosofia. É nós ou eles! Simples assim! Você é a favor ou contra! Comportado ou rebelde! Certo ou errado! Normal ou anormal! Sadio ou doente! Esse modelo mental é tão absurdo, apesar de ser violentamente defendido, que me faz pensar o que seria dos computadores se essa prática binária fosse aplicada a eles. Um computador só entende ligado ou desligado (zero 0 e um 1). Passa energia ou não passa energia. No entanto a combinação de possibilidades de 0 e 1 é gigantesca permitindo existir tudo que temos até hoje com apenas diálogos entre ligado e desligado. Essa redução da complexidade humana nos faz perder a possibilidade de fazer as combinações imaginativas que tanto necessitamos para sobreviver a essa crise civilizatória. Ficamos reduzidos a ter que dizer se somos contra ou a favor da vacina contra o novo coronavírus. Como se fosse possível responder essa pergunta sem saber quais das mais de 100 vacinas estão se referindo, quais os resultados dos testes que estão sendo realizados, quais os riscos e muito mais. No entanto se você começar a fazer perguntas, você é considerado ser contra vacinas e provavelmente vacinas em geral. Isso está valendo e cada vez pior para tudo.

Acredito que o ano de 2020 foi um marco civilizatório. Vamos percebê-lo degustando, aos poucos, seu legado.

Seremos culturalmente mais colaborativos em cores, gênero, número e grau!

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Primeiro de Dezembro

Pangolim

Esse texto faz parte do livro que estou escrevendo. Em cada primeiro dia do mês escrevo uma carta que será publicada no capítulo de uma retrospectiva de 2020. Segue a carta desse mês:

Estamos entrando no último mês da segunda década do século XXI. Onde estamos? Sabemos quem somos individualmente e ou coletivamente? Temos alguma ideia de como será o caminho civilizatório da terceira década deste século, que começa em janeiro? O que aprendemos em 2020? O que mudou? Quais são as verdades que adquirimos, quais foram ressignificadas e quais foram confirmadas?

Todas essas verdades são a nossa necessidade de ter explicações para tudo. Por que precisamos de explicações? Por que acreditamos nas explicações? Será que escolhemos em quais explicações acreditar ou somos levados a acreditar? Por que acreditamos em apenas uma das explicações?

Conforme prometido em minha carta do mês passado, vou trazer alguns exemplos para cutucar nossas verdades.

Antes de começar quero repetir o que o Arthur Schopenhauer disse:

“Toda verdade passa por três estágios.
  No primeiro, ela é ridicularizada.
  No segundo, é rejeitada com violência.
  No terceiro, é aceita como evidente por si própria”

Para não entrar em questões como a de que a Terra é plana ou redonda, nem se comer animais faz bem ou mal, vamos escolher um tema atual que não sai da pauta geral da humanidade deste ano: a pandemia! Vamos questionar… apenas questionar, nossas atuais verdades sobre a pandemia. Apenas um exercício que pode nos exemplificar como tudo é uma questão de percepção.

Verdade 1 – A transmissão do vírus veio pelo pangolim ou foi produzido em laboratório?

A tese inicial foi que o vírus SARSCoV2, foi transmitido por um pangolim num mercado na cidade de Wuhan (China) que vendem animais de todo tipo para serem consumidos. Algumas variações dessa explicação ocorreram se referindo a outros animais, mais preponderantemente ao morcego. Outra tese paralela apareceu dizendo que o vírus acidentalmente escapou de um laboratório em Wuhan. Essa tese ficou taxada como uma teoria da conspiração. O que elevou essa tese a uma explicação possível foi o depoimento da médica virologista chinesa, Li-Meng Yan, com declarações plausíveis. Nem vou trazer a questão de quando a disseminação começou… Qual a verdade, nesse assunto, que você acredita e expressa? O quanto você acredita que sabe sobre isso?

Verdade 2 – Cloroquina funciona ou faz mal?

Nessa questão aparecem até motivações políticas. Se você torce para um time acredita numa coisa e se torce para o outro acredita em outra. Chega a ser engraçado. A cloroquina foi recomendada bem no início pelo infectologista francês Didier Raoult, da Universidade Aix-Marseille. Algum tempo depois ele foi fortemente atacado dizendo que a não só a cloroquina (ou hidroxicloroquina) não funcionava como tinha altos riscos para o paciente. Durante os últimos 9 meses esse assunto foi de um lado para outro com decisões opostas em cada país, em cada hospital e em cada médico. As principais questões são se funciona, se o médico tem liberdade para prescrevê-lo, se seria uma campanha de difamação bancada pela ganância dos laboratórios e se as políticas públicas de saúde deveriam incluí-lo nas opções de tratamento. Qual a verdade, nesse assunto, que você acredita e expressa? O quanto você acredita que sabe sobre isso?

Verdade 3 – As máscaras para o cidadão saudável são úteis ou inúteis?

No início da proliferação do vírus a recomendação era só usar a máscara se você estivesse com sintomas da doença. Depois foi migrando para o uso geral em locais fechados e com o tempo foi se estabelecendo regras das mais variadas. O uso, em alguns lugares, passou a ser obrigatório mesmo ao ar livre e principalmente para quem corria ou andava de bicicleta. Para complicar um pouco mais a questão das máscaras, as pesquisas mostraram as diferenças de proteção de cada tipo de máscara eram significativas. Mesmo com a obrigatoriedade do uso da máscara muita gente não a usava, será que é uma falta de cidadania e de educação ou é uma ação de ativismo contra a obrigatoriedade? Qual a verdade, nesse assunto, que você acredita e expressa? O quanto você acredita que sabe sobre isso?

Verdade 4 – As vacinas, no Brasil, virão no próximo mês ou no segundo semestre de 2021?

Estamos falando das escolhas do Brasil na vacina de Oxford e da chinesa Sinovac. Ou não? Será que dá para incluir a da Moderna e da Pfizer? O que significa vacinar os brasileiros? Começaremos pelos profissionais de saúde? Pelo grupo de risco? Como será o transporte das vacinas? Precisará refrigeração ou algum cuidado mais técnico? Quantas pessoas serão necessárias vacinar para que a gente possa se considerar protegidos? Existe algum risco em tomar essas vacinas por terem sido produzidas em tão pouco tempo? Qual a verdade, nesse assunto, que você acredita e expressa? O quanto você acredita que sabe sobre isso?

Verdade 5 – As escolas devem abrir ou fechar?

Os médicos estão atordoados em tentar responder essa questão. Os que estudaram profundamente as pesquisas e acompanharam casos relacionados às escolas têm opiniões totalmente opostas. Adoraria mostrar duas lives, que assisti, de médicos pediatras bem conceituados com visões completamente diferentes um do outro. Mas o exercício aqui é de emergir as verdades de cada um de vocês que estão lendo esse texto e se perguntarem se a sua verdade pode ser apenas sua percepção da verdade. Nessa verdade sobre a questão de abrir ou fechar as escolas, tem várias nuances como a idade dos alunos, a arquitetura da escola, os cuidados programados pela escola, a escolha dos pais, o risco para os professores, a precariedade do online e assim por diante. Qual a verdade, nesse assunto, que você acredita e expressa? O quanto você acredita que sabe sobre isso?

Verdade 6 – Os números de casos e óbitos divulgados estão corretos ou incorretos?

Corretos: Os números são a compilação de cada secretária de saúde municipal, compiladas pelo estado e consolidadas pela união, se tiver um erro ou outro é insignificante dentro dos mais de 5.500 municípios brasileiros.

Incorretos: Como é possível saber quantas pessoas foram infectadas se não se testa quem não tem sintomas graves? O número de óbitos não leva em consideração um enorme contingente de mortes não notificadas, principalmente entre as pessoas de renda mais baixa e de localidades com restrição de acesso à hospitais.

Corretos: Se os números não fossem corretos, como se explicaria esses nove meses de monitoramento e decisões de gestão pública baseada neles?

Incorretos: Inacreditável que depois de nove meses de comprovação da inutilidade desses números, ainda tenha pessoas acreditando neles.

Qual a verdade, nesse assunto, que você acredita e expressa? O quanto você acredita que sabe sobre isso?

A ideia aqui é abrir o espaço para que mais percepções possam ser vistas e criar um contexto para que possamos olhar para nossas crenças e valores como sendo… apenas NOSSAS crenças e valores! Quando ridicularizamos alguma verdade alheia, ou reagimos mais radicalmente contra… cuidado… pode vir a ser a nossa verdade amanhã!

Só como saideira vou deixar uma questão a mais. Essa pandemia ou pandemônio pode ter sido alimentada por interesses de poder? Sem entrar em teorias da conspiração, conseguimos nos questionar como foi possível parar o mundo dessa maneira? A quem interessaria uma situação dessa? Como se seria possível articular uma coisa dessa magnitude, globalmente? Lembrem-se, é só um exercício para questionar nossas verdades!

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Primeiro de Novembro

Esse texto faz parte do livro que estou escrevendo. Em cada primeiro dia do mês escrevo uma carta que estará publicada no capítulo de uma retrospectiva de 2020. Segue a carta desse mês:

Estamos há dois dias das eleições americanas e quase 100 milhões já votaram. As pesquisas dão a vitória ao Biden… será? Em 14 dias teremos as eleições municipais no Brasil. Será que as pesquisas terão uma forte influência nos resultados como tiveram nas eleições passadas? O que faz alguém escolher um candidato? Como você escolhe seu candidato?

Desde 2014 as fake news e os algoritmos das mídias sociais tem um papel relevante nessa escolha dos candidatos. A questão principal é que as pessoas acreditam que o efeito indutivo na escolha é… só nos outros. Portanto, sendo assim, o voto de ninguém é influenciado por essas falcatruas. Só que não! Para quem assistiu o documentário “O Dilema das Redes”, não precisa falar mais nada. Para quem ainda não viu: veja urgente!

Se o resultado das eleições podem ser manipulados a favor de quem tem maior recurso e poder… para que mesmo servem as eleições? Ou, para quem mesmo servem as eleições? Com certeza, nesse formato, não servem a democracia. 

Como escrevi na carta de primeiro de abril: “A política dos políticos ainda sobreviverá mais algumas primaveras enquanto houver a crença de que o sistema eleitoral tem alguma coisa a ver com a democracia. A política vai migrar dos políticos para a sociedade civil. E as políticas públicas serão decididas pontualmente através da participação dos interessados devidamente qualificados. Em pouco tempo os políticos serão substituídos por uma nova geração de políticos conectados com a sociedade civil.” Espero que as eleições municipais de 2020 tragam ventos de mudança para o quadro político brasileiro. Quem sabe uma eleição tão inusitada como essa, possa causar uma disrupção no atual sistema de manipulação dos eleitores e apresentar resultados (positivamente) inesperados. Estou otimista demais?

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 O mês de outubro reforçou ainda mais a ideia de que a pandemia está ajudando a ressignificarmos praticamente tudo. Já caminhávamos numa crise civilizatória onde a economia, educação, medicina, ecologia, política e até mesmo a religião estavam (e estão) nos levando para a destruição do que conhecemos hoje como sociedade humana. Então… como fazer? Ninguém sabe as respostas ainda. Um olhar sistêmico e um desprendimento às nossas crenças atuais ajudam muito. Entre essas crenças estão os nossos preconceitos e os pré-conceitos que precisaríamos suspendê-los temporariamente até conseguirmos rever… tudo! A complexidade exige que ao mexer em qualquer ponto, o todo é afetado. Se soubermos – de verdade – que somos interdependentes como humanos, como seres vivos, como habitantes desse planeta será muito, muito mais fácil.  

Outubro também reforçou a fraude do sistema educacional, está cada vez mais difícil acreditar nele. O formato de aulas virtuais está fazendo alunos, professores e pais se perguntarem o que querem da Educação, o que querem da Aprendizagem. Na grande maioria das escolas… não está rolando! Não está razoável para ninguém. Chegou a hora de parar com isso e, juntos, com transparência, buscar uma nova educação. Talvez até já tenha passado da hora.  

A pandemia nos levou para um contato mais íntimo com o “Virtual”. Num primeiro momento, quase todos acreditam saber o que significa a palavra virtual. Vamos conferir? Descreva, com suas palavras, o que seja virtual! Faça esse esforço! O que é virtual?

Dê um tempinho antes de ir para a próxima frase… vai ajudar no entendimento.

Quando faço essa pergunta num grupo de aprendizagem, quase sempre recebo respostas bem diferentes, onde o mais importante não é o resultado e sim a percepção da dificuldade em definir uma coisa aparentemente simples.

Algumas respostas recorrentes:

– É o mesmo que digital.

– É algo que é, mas ao mesmo tempo não é.

– É quando se substitui algo real por uma coisa que não é real.

– É um ambiente que imita a realidade

– É algo que não existe na realidade

– Substitui a realidade, mas não perde a essência

– Permite expandir os limites de tempo e espaço sem riscos

… e por aí vai!

Percebam que não tem resposta errada, ao mesmo tempo é difícil buscar uma definição clara.

Vou começar pela etimologia da palavra virtual. Ela vem do latim medieval Virtuale e do latim Virtus que significa: Virtude, Força ou Potência. Adoro essa definição! O virtual não é uma mera transposição do presencial para o online. Trata-se de uma nova possibilidade, que se bem aproveitada, terá uma potência incrível. Não veio para substituir e sim para agregar.   

Quero insistir na virtude, força e potência do virtual porque na nossa linguagem ainda há resquícios de que o virtual não é real. Tanto é, que o antônimo de “virtual” é “real”.

Vou trazer um exemplo de algo bem virtual que usamos no dia a dia há muitos anos sem nos dar conta, em momento algum, de que não seja real ou verdadeiro. O dinheiro! Sim, o dinheiro é completamente virtual e no entanto interfere fortemente em nossas vidas. Ele era uma garantia, em papel, de seu valor em ouro (nem isso é mais). O ouro era guardado num banco e emitiam certificados que poderiam ser trocados de volta pelo ouro em qualquer outro banco. Depois criaram o papel moeda que já não identificavam o portador e hoje em dia mal usamos o papel. Isso sem falar na chegada das criptomoedas. Vamos valorizar o virtual e não denegrir sua imagem por causa de projetos mal encaminhados nessa pandemia.

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Escrever esse livro tem sido uma experiência de autoconhecimento. A cada página revejo o desafio entre o que quero passar e como posso fazer para transmitir de uma forma simples e ao mesmo tempo eficaz. Onde minhas verdades, são apenas as minhas verdades. Você, caro leitor, terá que negociar com suas próprias verdades e decidir se está disposto a abrir mão, mesmo que temporariamente, das suas verdades para conhecer outras. Sei que não deveria usar a palavra “verdade” tantas vezes na mesma frase…

“Toda verdade passa por três estágios.
  No primeiro, ela é ridicularizada.
  No segundo, é rejeitada com violência.
  No terceiro, é aceita como evidente por si própria”

Arthur Schopenhauer

Em dezembro apresentarei um menu com algumas delas para que você se pergunte em que estágio está com cada uma delas. Vai ser divertido!

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Esse texto faz parte do livro que estou escrevendo. Em cada primeiro dia do mês escrevo uma carta que estará publicada no capítulo de uma retrospectiva de 2020. Segue a carta:

2020… o ano em que a Terra parou!

Onde estamos? Num novo normal? Havia algum normal? Estamos então num novo anormal? Estamos indo para um novo anormal normal?

Se a essa altura do campeonato tiver alguém ainda achando que é uma crise passageira e que as coisas voltarão a ser como eram… talvez estejamos todos sofrendo de “Normose”.

Se você não está familiarizado com o termo Normose, sugiro que pare tudo que está fazendo e mergulhe por um instante num conceito maravilhoso para esse nosso tempo de pandemia.

Jean-Yves Leloup, Pierre Weil e Roberto Crema Normose definiram que normose é “um conjunto de hábitos considerados normais pelo consenso social que, na realidade, são patogênicos e nos levam à infelicidade, à doença e à perda de sentido na vida”. Escreveram em 2003 o livro “Normose: A patologia da normalidade”, a sensação de normose ocorre quando o contexto social que nos envolve se caracteriza por um desequilíbrio crônico e predominante. Parece familiar?

Assista, assim que puder, o TED com o Roberto Crema nos iluminando com essa patologia que sempre nos afligiu, mas que agora está a flor da pele: http://bit.ly/TEDnormose

No filme o Dia que a Terra parou, um alienígena vem para o nosso planeta nos alertar sobre o que o nosso comportamento está causando a nossa interdependência planetária. Parece que a ficção virou realidade! Essa civilização está numa crise existencial como nunca teve.

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Esse é um texto (WORLD on FIRE) escrito por Charles Eisenstein, disponível no original (em inglês) no https://charleseisenstein.org/essays/world-on-fire/

A foto que ilustra o artigo foi gentilmente cedida pelo fotógrafo Mario Friedlander (instagram.com/mariofriedlander)

 

O MUNDO EM CHAMAS 

por Charles Eisenstein

O Pantanal brasileiro é a maior área úmida tropical do mundo, cobrindo uma área quase do tamanho da Grã-Bretanha. Só que hoje, não está tão molhada. Após um verão de seca, estão ocorrendo incêndios catastróficos que já devastaram 2,4 milhões de hectares de terra este ano. (Isso é mais do que queimou na Califórnia, Oregon e Washington juntos.) Sua preciosa vida selvagem, incluindo a maior população de onças-pintadas do mundo, está sofrendo danos irreparáveis.

 

O que está causando a destruição? As causas mais aparentes parecem bem diferentes do que está causando os incêndios na Califórnia, mas se nos aprofundarmos através de várias camadas o suficiente, chegaremos à mesma causa profunda e, portanto, à mesma solução profunda.

 

Desde 2019, incêndios catastróficos têm atingido a Amazônia, a bacia do Congo, Austrália, Sibéria, Argentina e inúmeros outros lugares. Enquanto alguns na Direita política negavam que algo incomum estivesse acontecendo, hoje todo o espectro político está de acordo em que algo está terrivelmente errado. Nos Estados Unidos, a Direita oferece explicações de candidato como manejo florestal deficiente, enquanto os políticos democratas enfatizam a mudança climática. O que os dois concordam é que o estado atual das coisas é anormal, inaceitável e requer ação. Isso, pelo menos, é um progresso.

 

Na verdade, ambos os lados estão abordando a mesma verdade por direções diferentes. Deixe-me começar com o manejo florestal, passar pelas mudanças climáticas através da porta dos fundos, visitar o comportamento flagrantemente criminoso por trás dos incêndios na Amazônia e no Pantanal e finalmente chegar ao cerne da questão.

 

Gestão florestal

 

Artigos da Direita sobre os incêndios nos EUA geralmente invocam a frase: “As florestas devem ser mantidas de maneira adequada para evitar incêndios catastróficos”. Frequentemente, a conclusão deles é que regulamentações governamentais pesadas impediram a indústria madeireira de abater árvores mortas e manejar as florestas com sabedoria. O problema, claro, é que, sujeitas às forças do mercado, as empresas madeireiras historicamente e até o presente manejaram as florestas de acordo com o lucro, não com a sabedoria. Outro problema é que, mesmo que superficialmente, não pode ser correto afirmar que as florestas exijam manejo humano. Há mais de doze ou quinze mil anos atrás, não havia nenhum humano na Califórnia, mas a natureza cuidava de si mesma muito bem.

 

A história não é tão simples – as florestas, então, como agora, exigiam manejo. Em tempos pré-humanos o manejo era realizado por outras espécies como, na América do Norte, castores, salmão e principalmente a megafauna. O continente fervilhava de herbívoros gigantes, como mamutes e mastodontes, que devoravam árvores que brotavam, arrancavam cascas, pisoteavam a vegetação e derrubavam árvores como tratores. Esses “engenheiros de ecossistema” criaram paisagens em mosaico de floresta e savana e tornaram as florestas menos densas. Após seu desaparecimento logo chegaram os humanos, os humanos os substituíram como engenheiros do ecossistema, usando queimadas controladas e muitos outros métodos para manter paisagens produtivas, resilientes e biodiversas que eram resistentes a incêndios catastróficos. Como Kat Anderson descreve em Tending the Wild (Cuidando da Natureza):

 

                       “Por meio de corte, poda, gradagem, semeadura, capina, queima, escavação, desbaste e colheita seletiva, eles incentivaram as características desejadas das plantas individuais, aumentaram as populações de plantas úteis e alteraram as estruturas e composições das comunidades de plantas. A queima regular de muitos tipos de vegetação em todo o espaço local criou um habitat melhor para a caça, eliminou os arbustos, minimizou o potencial de incêndios catastróficos e incentivou a diversidade de culturas alimentares. Essas práticas de colheita e manejo, em geral, permitiram a colheita sustentável de plantas ao longo dos séculos e possivelmente milhares de anos.”

 

Um cenário semelhante ocorreu na Austrália dezenas de milhares de anos antes: a colonização humana seguida pelo desaparecimento da megafauna, seguida por queimadas controladas primorosamente desenvolvidas e outras técnicas de gestão de ecossistemas. Em ambos os continentes, mesmo quando a megafauna desapareceu, outros engenheiros de ecossistema floresceram: pássaros migratórios, predadores de vértice, castores, insetos e assim por diante.

 

Nos últimos séculos, as florestas e outros ecossistemas passaram a ser manejados não para a saúde, mas para o lucro. Hoje vemos sinais de uma reviravolta à medida que os formuladores de políticas começam a reconhecer a necessidade de reduzir os materiais combustíveis nas florestas; às vezes até consultam povos tradicionais que se lembram dos velhos hábitos. Muitas vezes, porém, os motivos de lucro pervertem as práticas de desbaste da floresta, levando-as a produzir madeira para venda em vez da saúde da floresta.

 

Além disso, os combustíveis florestais é um foco muito estreito na compreensão dos incêndios catastróficos de hoje. Um século ou mais de desmatamento e outros abusos de terra reduziram a resistência das florestas aos incêndios e criaram condições de seca que as agravam. É comum declarar que as mudanças climáticas estão prejudicando as florestas, mas pode ser mais correto dizer que os danos às florestas causam as mudanças climáticas, que prejudicam ainda mais as florestas.

 

O corte raso da floresta afeta o clima muito além da oxidação do carbono armazenado. Sem folhas, serapilheira (material orgânico em decomposição) e raízes para protegê-la, a camada superficial do solo é lavada e a água da chuva não tem chance de penetrar na terra. As inundações resultantes são inevitavelmente seguidas de secas. Por quê? Uma floresta saudável transpira água subterrânea, mantendo as condições de umidade e prolongando a estação das chuvas. Globalmente, pelo menos 40% das chuvas se originam da transpiração das plantas; na Amazônia é de 70%.

 

As florestas também contribuem para o resfriamento local, regional e global, à medida que a água transpirada evapora e sobe para a atmosfera. Seu calor latente é liberado quando ela se condensa mais acima, parte da qual irradia para o espaço. Além disso, as florestas saudáveis ​​emitem compostos e partículas de nucleação de gelo, aumentando a cobertura de nuvens, criando chuva e refletindo a luz solar de volta ao espaço. Florestas nativas desempenham essas funções especialmente bem (apenas 1% das florestas nativas da Califórnia permanecem). Aqui está uma passagem, ligeiramente modificada, de meu livro sobre o clima:

 

O Quênia, que perdeu a maior parte de sua cobertura florestal na última metade do século, também está sofrendo com secas persistentes e temperaturas mais altas. Regiões do Quênia, onde a temperatura diurna na floresta pode ser de 19 graus, registram temperaturas nas proximidades, onde recentemente limparam terras agrícolas, de 50 graus.… Em Sumatra, as terras desmatadas para plantações de óleo de palma foram

 

10 graus mais quentes do que a floresta tropical próxima e permaneceu mais quente mesmo quando as palmeiras amadureceram.

 

Uma floresta real e viva interage com o ciclo da água de maneiras complexas que a ciência está apenas começando a entender. (Muito do que se segue é proveniente do fantástico livro Global Deforestation, de Runyan & D’Odorico.) Uma maneira é convertendo umidade em chuva. O vapor de água na atmosfera não necessariamente cai como chuva, mas pode persistir como neblina no que é conhecido como “seca úmida” (humid drought). Uma razão para a formação de neblina é uma superabundância de pequenos núcleos de condensação, o que impede que as gotas de água se tornem grandes o suficiente para cair como chuva. Poluentes, fumaça de incêndios florestais e poeira de solo desidratado estão entre os culpados pela formação de névoa. Sobre as florestas, os núcleos de condensação são principalmente biogênicos, incluindo detritos de plantas, bactérias, esporos de fungos e aerossóis orgânicos secundários originados como compostos orgânicos voláteis emitidos pela vegetação. Isso ajuda na formação de nuvens carregadas de precipitação em vez de neblina, e permite a formação de nuvens em temperaturas mais altas do que os núcleos abióticos. Pesquisas recentes confirmam o aumento da cobertura de nuvens sobre e perto das florestas. Essas nuvens mais baixas e espessas têm um efeito de resfriamento maior do que as nuvens de grande altitude. De acordo com um pesquisador, um aumento de 1% no albedo (coeficiente de reflexão) das nuvens geradas pela floresta compensaria todo o aquecimento das emissões antropogênicas de gases de efeito estufa.

 

As florestas saudáveis ​​não apenas reciclam a chuva, mas também a retiram do oceano por meio do mecanismo da bomba biótica. O vapor de água evapotranspirado se condensa para criar zonas de baixa pressão, que puxam um novo ar carregado de umidade dos oceanos e afetam os padrões globais de vento e, portanto, os padrões de chuva. Quando as florestas são danificadas ou destruídas, a fisiologia da Terra fica comprometida.

 

No oeste dos Estados Unidos, o represamento de rios e o quase extermínio de castores também causou danos incalculáveis ​​às florestas e ao clima. As barragens evitam inundações sazonais, alteram a distribuição de sedimentos, levam à erosão a jusante e impedem os peixes migratórios que transportam nutrientes marinhos para a floresta e desempenham um papel fundamental nas cadeias alimentares. Os castores criam pântanos, aumentam a biodiversidade e reduzem a velocidade da água para mitigar inundações e sustentar os lençóis freáticos. Na verdade, a extinção de qualquer espécie enfraquecerá toda a floresta (ou qualquer ecossistema), assim como sua saúde sofreria se você destruísse um tipo de tecido ou célula. Após séculos de destruição do habitat ao redor do mundo, é incrível que a Terra ainda esteja se agarrando à saúde.

 

Criminalidade e Ignorância

 

Meu amigo brasileiro Alan Dubner me descreveu a “cascata de criminalidade” que está destruindo a Amazônia. Primeiro vêm os madeireiros, usando métodos sofisticados para escapar da aplicação do governo às proibições de madeira. O que sobrou seca facilmente e pode ser queimado pelos criadores de gado, que pastam seu gado no que está tentando crescer novamente. Em seguida, vêm as plantações de soja, exaurindo qualquer fertilidade que resta no solo. O que resta é basicamente um deserto, inútil para ninguém, exceto as empresas de mineração que acabam com a ruína.

 

Quanto mais da Amazônia é destruída, menos chuva ela pode puxar do oceano Atlântico e mais vulnerável a incêndios. O declínio das chuvas afeta o resto do Brasil, desde o Pantanal ao sul. Na verdade, o poder da bomba biótica amazônica é tal que sua desestabilização altera os padrões climáticos em todo o mundo.

 

O Pantanal é afetado não apenas por mudanças nos padrões climáticos, mas também por grandes barragens hidrelétricas e invasão progressiva de pecuaristas. As grandes zonas úmidas do Pantanal tornam-se altamente inflamáveis ​​quando secam, dando a proprietários de terras e especuladores inescrupulosos a oportunidade de provocar incêndios. A renomada ambientalista brasileira Marina Silva me escreveu o seguinte comentário: “Tragédia orquestrada. É o que está acontecendo no Pantanal aqui no Brasil. Desmonte das políticas ambientais, corte de recursos para combater desmatamentos e queimadas, tudo isso em uma ação de criminosos, o resultado não podia ser outro.”

“O que precisa ficar claro é que as queimadas no Pantanal e na Amazônia não são acidentais. Fazem parte de um projeto e de uma visão de mundo que despreza o meio ambiente, com os quais o governo compactua e incentiva. Não importa se é o território com maior diversidade de mamíferos do mundo, a maior área úmida do planeta e com maior presença de onças-pintadas.”

Vamos dar um passo para trás por um momento. A criminalidade de que Marina Silva fala é especialmente danosa por causa das condições trazidas por outra criminalidade em outras áreas, como a Amazônia. No entanto, não podemos culpar inteiramente a criminalidade pelos incêndios do mundo. Afinal, a maior parte do desmatamento e degradação florestal é perfeitamente legal. O problema está na mentalidade e nas forças econômicas subjacentes à destruição das florestas, sejam elas criminais, legais ou mesmo inconscientes.

 

A extração ilegal de madeira e queimadas estão no mesmo espectro que os conservadores de “mau manejo florestal” culpam pelos incêndios nos Estados Unidos. Em vários graus, ambos suprimem em vez de participar dos processos naturais. Eles compartilham do padrão de dominação: dominação física construída sobre o rebaixamento conceitual de que florestas vivas são meras coisas. Os conservadores estão, em certo sentido, corretos, exceto que a “má gestão” vai muito além da supressão de incêndios para abranger toda a relação da sociedade moderna com a floresta. Além disso, esse relacionamento ruim gera muitas das condições pelas quais os políticos progressistas culpam as mudanças climáticas. Em certo sentido, eles também estão certos, exceto que a mudança climática abrange muito mais do que o aquecimento global induzido pelos gases de efeito estufa, e é tanto uma consequência quanto uma causa da degradação florestal.

 

Reverência e Relacionamento

Embora engenheiros, ecologistas e especialmente povos indígenas possam oferecer técnicas para administrar adequadamente as florestas e restaurá-las à sua resiliência, a transição para um mundo curado (healed) requer algo muito mais profundo do que melhores técnicas. Mais importante é aprender a incorporar a fonte de onde surgem as práticas de gestão de terras indígenas. Essa fonte é uma maneira de ver, conceber e de se relacionar com a natureza. É também uma forma de nos compreendermos: quem somos e porque estamos aqui.

 

Fundamentalmente, a fonte de sabedoria do manejo florestal é ver e conhecer a natureza como um ser, não uma coisa. É o melhor que posso dizer, mas não é bom o suficiente. As próprias palavras me induzem ao erro. A natureza não é algo separado de nós mesmos, e nem mesmo “coisas” são apenas coisas. Deixe-me dizer então que as culturas tradicionais e indígenas vivem em um mundo onde o ser está em toda parte e em tudo, e os humanos não são mais nem menos sagrados do que as árvores, montanhas, água ou formigas.

 

No nível mais óbvio, a visão da natureza como coisa facilita muito o corte raso, mineração, extração e lucro, assim como a desumanização de outras pessoas permite sua exploração e escravidão. É o mesmo modelo mental básico. Mas também há outro problema: a mentalidade da natureza-como-coisa nos impede de entrar na intimidade do relacionamento que é necessário para cuidar, curar e co-criar com ela para benefício mútuo. É como a diferença entre um médico que o trata impessoalmente, como um “caso”, e aquele que o vê como um ser humano pleno.

 

No mês passado, o estado da Califórnia se comprometeu com um programa de desbaste florestal de 20 anos que visa reduzir incêndios por meio de derrubada de mato, extração de madeira e queimadas prescritas. Este programa está repleto de possíveis consequências não intencionais. Quando entendemos uma floresta como um organismo, um ser, em vez de um objeto de engenharia, reconhecemos conceitos de engenharia como a redução de combustíveis florestais como, na melhor das hipóteses, um primeiro passo. Afinal, uma floresta saudável requer matéria vegetal em decomposição para nutrir fungos, invertebrados etc. que são elementos cruciais da ecologia florestal. Como sabemos quanto mato (brush) limpar e quantas toras remover? Só podemos aprender isso através da observação atenta e de um longo relacionamento. Aqui, a experiência dos povos nativos (indígenas) locais pode ser inestimável, pois eles acumularam esse conhecimento ao longo de inúmeras gerações. Aprender com os erros inevitáveis ​​que ocorrerão no programa de desbaste da floresta exigirá humildade, o tipo que surge quando se sabe que está se relacionando com um ser vivo complexo. Caso contrário, tropeçamos de um erro para o outro, assim como quando, no esforço de aumentar o sequestro de carbono, plantamos árvores ecológicamente e culturalmente inadequadas que acabam morrendo algumas décadas depois, deixando as condições ainda piores do que antes.

 

Outra palavra para a atitude que citei como a fonte da qual surgem as práticas de gestão de terras indígenas é “reverência”. Reverenciar algo é o oposto de reduzi-lo a uma coisa. Pessoas modernas e educadas viveram muito em uma matriz ideológica que diz que a natureza, no fundo, é meramente um turbilhão de partículas genéricas sacudindo de acordo com forças matemáticas. O que há para reverenciar? Diz que propósito, inteligência e consciência subsistem apenas nos seres humanos. O incêndio do mundo nos chama a despertar dessa ilusão.

 

Pela atitude de reverência, vemos coisas invisíveis aos olhos do engenheiro. Fazemos perguntas que o utilitarista nunca faz. Paradoxalmente, no final, o conhecimento assim obtido serão mais úteis – não apenas para a floresta, mas para nós mesmos – do que qualquer coisa que poderíamos realizar com a mentalidade exploradora.

 

Na verdade, não estamos separados da natureza. O que fazemos ao outro, em última análise, fazemos a nós mesmos. Quando as florestas estão doentes, estamos doentes. Quando elas queimam, mesmo que escapemos das chamas, algo queima dentro de nós também. O clima social reflete o clima geológico. Podemos não reconhecer essa verdade como os indígenas reconhecem, mas somos a terra. Não é óbvio, olhando para o cenário político de hoje, que um incêndio está fora de controle?

 

Não consigo estabelecer facilmente uma conexão causal aqui, mas parece significativo que incêndios florestais incontidos sejam contemporâneos de retórica inflamada, debates acalorados, temperamentos inflamados, ódio ardente, desconfiança fervilhante e ressentimento latente. Assim como as florestas secas e carregadas de material combustível queimaram fora de controle com uma simples faísca, assim também nossas cidades queimaram quando a centelha de assassinatos da polícia atingiu o combustível de gerações de racismo; décadas de decadência econômica e meses de confinamento em Covid. Nosso ecossistema social está tão danificado e esgotado quanto as florestas que são tão sujeitas ao fogo. A matriz de relações complexas que chamamos de comunidade desabou em grande parte em relações simplificadas com instituições impessoais, mediadas por dinheiro e tecnologia. As redes sociais podem dar a aparência de comunidade, mas carecem da interdependência que marca uma comunidade real (ou ecossistema). Podemos ver agora como essa sociedade é frágil – ou inflamável.

 

Não serei ousado a ponto de dizer que abordar nossa separação social apagará os incêndios. No entanto, pode-se ver como o projeto de cura da terra por meio da reverência e do relacionamento é congruente com o projeto de cura social, que também depende da restauração da reverência e do relacionamento.

 

A Porta de Entrada Chamada Encantamento (The Doorway Called Enchantment)

 

Eu moro no nordeste da terra que as pessoas chamam de Estados Unidos. Aqui, o fogo ainda não é uma grande ameaça. Algumas semanas atrás, eu estava caminhando com meu irmão na floresta atrás de sua fazenda na Pensilvânia, onde o terreno inclinado dá lugar à encosta da montanha. Cruzamos um riacho, um filete nu em alguns lugares e seco em outros. John me contou que esteve aqui com um veterano que disse que, em sua juventude, este riacho era tão profundo e forte, mesmo em agosto, que havia poucos lugares onde se podia atravessá-lo. O que aconteceu com esse ser, esse riacho? Alguns moradores dizem que é porque muitos poços foram cavados, baixando os lençóis freáticos e secando as nascentes que alimentam os riachos. Outros dizem que é por causa do corte repetido da montanha, que remonta à época colonial. Ou talvez, pensei, seja novamente um resultado demorado da cascata de mudanças que se seguiram ao extermínio de lobos, pumas e castores. Todas essas atividades são um insulto à terra e à água, alheios à reverência.

 

Em última análise, para parar os incêndios e entrar no caminho da cura do mundo, devemos passar da dominação e subjugação à reverência e respeito. Às vezes, isso significa assumir o papel de protetora de seres vulneráveis ​​e preciosos, como Marina Silva está fazendo no Brasil. (Aqui está uma organização com a qual ela trabalha, junto com outras que mencionei em meu artigo de 2019 sobre os incêndios na Amazônia.) Às vezes, significa assumir o papel de nutridor ou curador, como as pessoas reintroduzindo castores, praticando agricultura regenerativa e construindo paisagens de retenção de água. Para alguém no mundo corporativo ou financeiro, a reverência pode levá-lo a escolher a vida ao invés do lucro em um momento em que é necessário um pouco de coragem para fazer isso. Essa coragem é uma versão diluída da coragem de ativistas indígenas sul-americanos que correm o risco de serem torturados e assassinados por proprietários de terras, madeireiras, mineradoras e seus paramilitares, porque coloca algo mais acima da maximização do interesse pessoal. É, portanto, um importante ato de solidariedade.

 

A reverência traz coragem. A reverência traz conhecimento. A reverência traz habilidade. A reverência traz cura. É o fulcro da grande virada da civilização em direção ao reencontro com a natureza. Hoje a palavra tem conotações religiosas, mas esse não é o tipo de reverência que adora um ídolo. É a reverência do amante que olha nos olhos da amada e vê o infinito.

 

Se a reverência traz todas essas coisas, então o que traz reverência? Não basta apenas exortar as pessoas a serem mais reverentes. A porta de entrada para a reverência é o encantamento. Há alguns dias, estive com meu filho Cary, de sete anos, no último lago costeiro não desenvolvido de Rhode Island observando tartarugas. Sentimos o que é ser aquelas tartarugas. Mal podíamos parar de observá-las. Naquele momento, o pensamento de que iríamos prejudicá-las por qualquer coisa menor do que um propósito sagrado era horrível e absurdo. Nós as conhecíamos como preciosas em si mesmas, e não para qualquer uso para nós. Poucas pessoas, sentindo aquele momento, poderiam escapar daquele encantamento. No entanto, todos os dias, participamos de sistemas que tratam as tartarugas e muito mais como recursos a serem explorados, ou que as transformam em danos colaterais em outra exploração. Não podemos evitar essa participação, pois vivemos nesse sistema, e esse sistema vive em nós. Cada vez mais, pessoas como nós, não se sentem mais à vontade com esse pensamento. Ele não pode acomodar facilmente nossa reverência, nosso encantamento e nosso verdadeiro propósito de servir à vida.

 

Executivos de mineradoras ou membros de esquadrões da morte a serviço de fazendeiros podem estar muito longe da porta do encantamento. O princípio da reverência gerada pelo encantamento não substitui a ação legal, a ação direta não violenta e assim por diante. No entanto, um planeta curado não resultará de uma sucessão de ações desesperadas de contenção. Precisamos nos basear na experiência direta da Terra, obviamente tão preciosa quanto as tartarugas foram para Cary; conhecê-la como ser e como organismo, e precisamos difundir esse conhecimento. Então, teremos a clareza, a coragem, a habilidade e, o mais importante, os aliados em lugares improváveis, para defender suas partes vulneráveis, para preservar e fortalecer seus órgãos e para fazer a transição de sistemas construídos na mitologia da Terra-como -coisa.

 

Charles Eisenstein – Setembro de 2020

 

(traduzido por Alan Dubner)

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Primeiro de Setembro

Estou publicando mais um texto que pertence ao livro que estou escrevendo. Comecei escrevendo uma carta no dia primeiro de janeiro de 2020 e a cada primeiro dia do mês, escrevo outra. Resolvi publicar a de primeiro de abril e venho repetindo a cada primeiro do mês. Essas cartas estarão no capítulo de uma retrospectiva. Segue a carta:

Bom dia setembro! Bom dia primavera! Bom dia internacional da Paz!

Estamos num momento Fênix de mundo? Um mundo está morrendo e um outro está renascendo de suas cinzas? A Fênix* é um pássaro mitológico que depois de um longo tempo de vida percebe que é a hora de partir, constrói uma pira e canta enquanto arde em fogo. Das suas cinzas nasce uma nova Fênix.

Nova Medicina – Na área da saúde estamos vivendo a quarta crise dos efeitos da Covid19. A primeira foi a constatação dos efeitos que o novo Coronavírus causava, nos diferentes níveis de adoecimento e letalidade. A segunda explicitou o despreparo do sistema de saúde para atender a esse tipo de cenário da pandemia. A terceira crise foi na disrupção dos tratamentos de enfermidades crônicas ou novas intercorrências que não conseguiram ser atendidas adequadamente frente a ocupação integral, do sistema de saúde, no combate a pandemia. A quarta crise (ou onda), que se soma as três anteriores que ainda estão em andamento, está se manifestando na esfera da saúde mental. Questões psíquicas, transtornos mentais, depressão, alcoolismo, dependência de psicoativos, suicídios e outros problemas graves que a pandemia acentuou. Essa situação está levando ao colapso do sistema de saúde mundial. Uma nova forma de olhar a medicina emerge desse caos. É uma emergência (de emergir) desses sistemas complexos (teoria do caos). Um problema sistêmico que não pode ser resolvido com as crenças e valores que criaram esse problema. Nas palavras de Albert Einstein “Nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo estado de consciência que o criou.”

A Nova Medicina vai focar na saúde ao invés da doença; vai procurar entender o todo ao invés da especialidade; vai aceitar olhar para todas as formas de medicina ao invés de criar barreiras de proteção para a sua; vai interferir diretamente na qualidade da nutrição ao invés de atender suas consequências negativas; vai se manifestar nas políticas públicas que gerem qualidade do estilo de vida ao invés de transferir essa responsabilidade aos políticos;  vai incentivar mais a busca de remédios naturais do que a dos laboratórios; vai ouvir mais do que falar…

A Nova Medicina conta com a ciência, tecnologia, natureza e cultura para se aprimorar constantemente. Os avanços no desenvolvimento da inteligência artificial, da análise do DNA, das possibilidades da impressão 3D, da neurociência, da sabedoria dos povos nativos, da sabedoria dos povos milenares, da biologia da crença, biomimetismo e tantos outros avanços.

Os terapeutas da nova medicina terão que se reinventar e acoplarem os princípios e valores que irão se consolidar na terceira década do século XXI. Quem não começar já… vai perder o bonde. Quem não reconhecer sua ignorância aos novos tempos terá muita dificuldade de aprender e apreender essa nova faceta das terapias em geral. Quanto aos jovens que estão entrando nessa área e nem sabem o que é um “bonde”, as notícias são boas. Ao contrário do que parece o campo profissional vai crescer enormemente, não porque haverá mais doentes e sim porque a busca por cuidar da saúde vai crescer muito. A vantagem dos jovens é que não precisarão descontruir a colonização secular. Estão desenhando o futuro enquanto exercem o presente. Em pouco tempo… acreditem… os jovens ensinarão os profissionais de saúde mais experientes a entender e a se locomover nessa nova medicina. Farão isso ao mesmo tempo que apreciarão e honrarão os ensinamentos dos mais experientes. Preparem-se para um ambiente bem mais saudável no sistema de saúde. Por enquanto parece até impossível. Uma jovem Fênix renascerá das cinzas!

 

Nova Educação – A essa altura as escolas já estão percebendo que o atual modelo de negócio está fracassando. Enquanto algumas continuam fingindo que estão ensinando outras procuram encontrar uma solução de curto prazo para o problema. Na verdade, os sistemas de aprendizagem terão que pensar no médio e longo prazo para realmente sobreviverem. É uma situação muito difícil para todos os envolvidos. Ninguém está bem nesse momento e as aparentes soluções, nada mais são do que percepções de uma realidade que ainda não conhecemos. Quanto mais cedo se renderem a absoluta necessidade de enfrentarem o desenho de uma nova educação, mais cedo a saúde de todos vai melhorar. Essa é uma tarefa em que todos precisarão participar.

Quando escuto dizerem as duas palavras macabras, “ano perdido” me arrepio até a alma com tamanha falta de visão em educação (me desculpem os que acreditam nisso). Como assim ano perdido? Alguém consegue acreditar que quem viveu em 2020 não aprendeu mais, comparativamente, do que em qualquer dos anos anteriores dessa década? Daqui a 10 anos, qualquer que seja a idade escolar de hoje, você acredita que o estudante aprendeu mais em 2020 ou em 2019? Em 2020 ou em qualquer dos anos de 2011 em diante? A resposta é tão óbvia que precisaria alterar completamente as métricas do que significa aprender, para achar que o ano foi perdido. Podemos, sim, afirmar que foi muito negativo em vários aspectos e até mesmo perigoso quanto a segurança alimentar, violência doméstica e tantos outros problemas que realmente estão acontecendo. O aumento do degrau social de acesso à educação, a situação insalubre dos professores, a incerteza de como será o mês seguinte e tantos outros problemas que estão ocorrendo não fazem de 2020, nem de longe, um ano perdido!

O sistema de educação brasileiro já estava quebrado antes da pandemia. O Brasil ocupa um lugar vergonhoso no ranking mundial. E por incrível que isso pareça pode ser uma grande vantagem para o nosso país. O fato de ainda estarmos no século XIX quanto a educação e tudo que estamos vivendo esse ano desmorona o sistema todo… podemos migrar diretamente para o século XXI. Fizemos isso com a tecnologia da informação no final dos anos 80. Estávamos tão atrasados em termos tecnológicos que quando resolvemos finalmente entrar, já pulamos diretamente para uma etapa mais inovadora. Enquanto os EUA e a Europa estavam se readaptando dos sistemas antigos para os novos, nós fomos diretos para os novos. Durante muitos anos lideramos mundialmente os sistemas de informação bancários, financeiros, agrícolas e outros. Não tivemos que pagar os custos de uma longa jornada de aprendizagem e amortizar o capital investido nesses primórdios de TI. O mesmo pode acontecer com a educação. Podemos ir direto para uma nova educação criar sistemas de aprendizagem que servirão de modelo para muitos países. Sim podemos nos tornar um modelo para o mundo. Resta saber se vamos continuar nessa toada onde a educação não tem importância para o país.

 

Nova Economia – O que parecia distante no tempo está cada vez mais atual. As diversas versões de uma nova economia estão se mostrando bem fortes nesse período onde a economia tradicional está perdendo tempo e espaço.  Conceitos de economias como a Economia Circular, Economia Criativa, Economia Verde, Economia Social, Economia Compartilhada, Economia Gift e muitas outras que estão fartamente explicadas no livro, estão ganhando terreno no mundo inteiro.

 

Nova Política – Quando teremos um sistema político no Brasil que seja justo e decente? Será que já tivemos? Fico realmente impressionado que praticamente todo mundo acredita que o sistema eleitoral é sinônimo de democracia. Será que poderíamos refletir na ideia de que ao contrário, o atual sistema eleitoral brasileiro nos distancia da democracia? Será uma heresia?

 

Vou ficar por aqui e deixar um vídeo (gravado na semana passada) bem ilustrativo dessa minha carta de hoje. Trata-se de uma palestra de Sua Santidade o Dalai Lama sobre A Necessidade de Ética Secular no Sistema Educacional Moderno. Imperdível. Ainda sem legendas em português. https://youtu.be/DX68mxp9Jw0

 

Fênix *

O mito da Fênix é muito antigo. Deve ter milhares de anos de existência. Segue a descrição do poeta persa sufista Farid al-Din Attar, no livro A Conferência dos Pássaros, de 1177:

“Na Índia vive um pássaro que é único: a encantadora fênix tem um bico extraordinariamente longo e muito duro, perfurado com uma centena de orifícios, como uma flauta. Não tem fêmea, vive isolada e seu reinado é absoluto. Cada abertura em seu bico produz um som diferente, e cada um desses sons revela um segredo particular, sutil e profundo.

Quando ela faz ouvir essas notas plangentes, os pássaros e os peixes agitam-se, as bestas mais ferozes entram em êxtase; depois todos silenciam. Foi desse canto que um sábio aprendeu a ciência da música. A fênix vive cerca de mil anos e conhece de antemão a hora de sua morte. Quando ela sente aproximar-se o momento de retirar o seu coração do mundo, e todos os indícios lhe confirmam que deve partir, constrói uma pira reunindo ao redor de si lenha e folhas de palmeira.

Em meio a essas folhas entoa tristes melodias, e cada nota lamentosa que emite é uma evidência de sua alma imaculada. Enquanto canta, a amarga dor da morte penetra seu íntimo e ela treme como uma folha. Todos os pássaros e animais são atraídos por seu canto, que soa agora como as trombetas do Último Dia; todos aproximam-se para assistir ao espetáculo de sua morte, e, por seu exemplo, cada um deles determina-se a deixar o mundo para trás e resigna-se a morrer. De fato, nesse dia um grande número de animais morre com o coração ensanguentado diante da fênix, por causa da tristeza de que a veem presa.

 É um dia extraordinário: alguns soluçam em simpatia, outros perdem os sentidos, outros ainda morrem ao ouvir seu lamento apaixonado. Quando lhe resta apenas um sopro de vida, a fênix bate suas asas e agita suas plumas, e deste movimento produz-se um fogo que transforma seu estado. Este fogo espalha-se rapidamente para folhagens e madeira, que ardem agradavelmente. Breve, madeira e pássaro tornam-se brasas vivas, e então cinzas. Porém, quando a pira foi consumida e a última centelha se extingue, uma pequena fênix desperta do leito de cinzas.”

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Primeiro de Agosto

Estou publicando esse texto que pertence ao livro que estou escrevendo. Comecei escrevendo uma carta no dia primeiro de janeiro e a cada primeiro dia do mês, escrevo outra. Resolvi publicar a de primeiro de abril e venho repetindo a cada primeiro do mês. Essas cartas estarão no capítulo de uma retrospectiva do ano de 2020. Nas primeiras décadas do século XXI, escrevo uma para cada ano e estou escrevendo uma carta para cada uma das últimas cinco décadas do século XX. Segue a carta:

Quando comecei a escrever esse livro em janeiro desse ano, não imaginava que viveríamos o conteúdo do livro. Logo no início escrevo um pequeno texto com o título:

Crise Civilizatória

“A palavra “crise” traz uma conotação negativa, mas na verdade é apenas um momento de decisão onde uma possível mudança é eminente. A etimologia vem do latim crĭsis, que por sua vez vem do grego krisis, onde a palavra era comumente usada para questões de saúde. Na medicina designava o momento decisivo onde separava o paciente em direção a cura ou a morte. Portanto para nosso mútuo entendimento a palavra crise está significando um momento em que nossas escolhas determinarão por quais transformações iremos passar. Nossas percepções dessa realidade vão nos conduzir as decisões individuais e coletivas para o caminho da cura ou da morte.

Quanto a palavra “civilizatória”, o entendimento é mais complexo. É sobre o processo que nos leva a civilização, ou seja, a nos civilizar. A nos tornar cidadãos de uma sociedade civil geograficamente definida, de uma cidade, estado, país, continente e até mesmo de um planeta. Como definir civilização? Seria talvez o conjunto de códigos sociais e culturais definido por uma elite dominante? Ou talvez por um conjunto de regras morais e éticas definidas pelo conjunto dos cidadãos através de sistemas de representação? Muitos o definem, também, como um processo de dominação e controle da natureza pelo homem. Seja como for o importante é perceber que todas as civilizações que existiram antes da nossa, nasceram, tiveram seu apogeu e… morreram! Seria ridículo acreditar que a nossa civilização não vai… morrer!

Onde estão os princípios, crenças e valores que estão levando a nossa civilização a se autodestruir? Como conseguem passar desapercebidos? São percepções equivocadas para o momento atual na economia, educação, política, medicina, ecologia e religião. A combinação dessas miopias nos fazem caminhar para o fim de mais uma civilização. Não se trata de uma mudança ou de uma melhoria e sim de uma completa transformação. Portanto precisamos urgentemente, migrarmos a atual cultura para uma nova economia, uma nova educação, uma nova medicina, uma nova ecologia, uma nova política e até mesmo uma nova religião.

Boa sorte para todos nós!”

Um pouco mais para frente repasso o trecho inicial do texto com o título:

Acreditar no Inacreditável

“Temos a incrível capacidade de acreditar no inacreditável. E pior, acreditar que estamos vendo a verdade e de que nossos pressupostos estão corretos. E para piorar ainda mais, acreditamos que os outros não estão vendo a realidade como ela é. Poderia ser até engraçado se não fosse trágico.

Joseph Campbell, brilhantemente, dizia que “Mitologia” é a religião dos outros. Ou seja, o que você acredita, percebe e valoriza é, na maior parte das vezes, o certo… é a realidade que, infelizmente, nem todos conseguem ver. Na verdade bem poucos conseguem ver! Olhar aquilo que acreditamos como sendo (também) uma fantasia, uma ilusão e ou uma mitologia é possivelmente o exercício mais difícil de desapego, humildade genuína e autoconhecimento que corajosamente podemos realizar. O medo é tanto que nem admitimos que possa haver algo a ser checado com a nossa maneira de ver a realidade. O desafio é perceber que a nossa percepção é apenas uma percepção. Repetindo: perceber que a nossa percepção é… apenas uma percepção!

A pergunta que fica é que se não vemos as coisas como elas são, deveria ser fácil provar isso, mostrando como as coisas realmente são. Sim é fácil e já foi mostrado e demonstrado milhares de vezes. A pergunta, então, deveria ser: porque não “caímos na real”?

Vou apresentar um dos mais famosos exemplos criados por Christopher Chabris e Daniel Simons que depois (2010) se tornou o livro “O Gorila Invisível”. Um livro delicioso! Trata-se de um experimento que realizaram em 1999. Pediam para as pessoas assistirem um vídeo bem curto com a instrução de contar os passes dos que estão de camisa branca. Viam-se três jovens de camisa branca e três de camisa preta que iam se movimentando e passando uma bola de basquete entre os da mesma cor de camisa. Cada time tinha sua própria bola. Depois de um curto tempo aparece uma mensagem perguntando quantos passes você contou e em seguida dizendo que a resposta correta era 15 passes. O meu choque veio com a pergunta seguinte: Mas… você viu o gorila?! Gorila? Que gorila? O vídeo então volta as imagens e mostra o momento em que uma pessoa vestida de gorila passa entre os jovens, para no meio da tela e bate no peito zombando de nossa completa cegueira. A primeira vez que vi o vídeo achei que era um truque de vídeo, porque seria completamente impossível eu não ter visto aquele monstro tão descaradamente visível….”

Esse mês de julho abriu espaço para entendermos melhor o quanto não estamos entendendo os números de nada. Ou melhor… que os números não dizem nada e provavelmente nunca disseram. Estamos tão presos aos números que São Paulo teve uma instabilidade no sistema  do DataSUS de contagem casos da Covid19 num único dia e a sensação foi de alegria de que os números caíram, no dia seguinte apresentou os números atualizados e quase gerou pânico que os casos tiveram uma subida com novo recorde no Estado. A que ponto chegamos? Somos movidos a números que não temos a menor ideia de como são produzidos e, no entanto, reagimos de acordo com essa miragem. As eleições que o digam! Somos movidos por essas quimeras que chamamos de realidade.

Esse mês foi também o palco de diversos manifestos e cartas no Brasil. Destaco três:

A “Carta ao Povo de Deus” que foi produzida por 152 bispos, arcebispos e bispos eméritos do Brasil. Ela “vazou” no domingo (26/07) e está mobilizando um contingente grande de pessoas entre católicos e não católicos. Desdobramentos virão.

O manifesto #liberteofuturo foi lançado no domingo 5 de julho “Queremos lutar pelo futuro do presente ―no presente.” liberteofuturo.net

O manifesto da Coalizão Brasil lançado em 17 de julho representa bem o que precisa ser feito para a proteção dos povos indígenas. Leia na íntegra:

Brasil precisa proteger os povos indígenas contra a pandemia e a ilegalidade

 A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimento formado por mais de 200 representantes do agronegócio, da sociedade civil, setor financeiro e academia, acredita que é possível ser uma potência florestal, agrícola e da biodiversidade e, ao mesmo tempo, conservar e expandir o enorme patrimônio natural do país. Mas este modelo só tem sentido se garantir também a proteção aos povos originários da floresta.

A contribuição dos territórios indígenas para a integridade do bioma Amazônico já foi comprovada em diversos estudos. Além da proteção ao meio ambiente, que beneficia também a produção agrícola, essas populações representam uma enorme riqueza e diversidade sociocultural. Por isso, sempre que a defesa dos territórios ou modos de vida dos indígenas brasileiros e seus conhecimentos tradicionais são ameaçados, o Brasil também corre risco.

Historicamente vulneráveis a doenças e reféns de uma estrutura precária de serviços de saúde, especialmente na região Norte, os mais de 800 mil indígenas do país enfrentam um cenário crítico em meio à pandemia da Covid-19. Segundo dados do IPAM, a taxa de mortalidade entre indígenas é mais que o dobro dos não indígenas. Diante dessa ameaça, torna-se fundamental a redução da circulação entre cidades e aldeias.

Por isso, a Coalizão Brasil reforça a urgência de implementar o Plano Emergencial para Enfrentamento à Covid-19 nos Territórios Indígenas, como forma de assegurar o acesso às ações e aos serviços de prevenção necessários a essas comunidades. Além disso, o movimento vê com preocupação os vetos da Presidência a garantias básicas que o texto do plano trazia. Preocupa também as ações do Governo para medicar essas populações com remédio cuja comprovação científica tem sido questionada pela classe médica e pela Organização Mundial de Saúde. Por isso, a participação efetiva dos povos indígenas na execução do plano é um princípio básico de respeito e eficácia.

A crise da Covid-19 às comunidades indígenas tem sido agravada pela constante invasão de suas terras que, além de levar o crime a esses territórios, levam esse vírus a essas populações. Por isso, é urgente que o Executivo cumpra a decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, que determinou a retirada imediata de todos os garimpeiros da Terra Indígena Ianomâmi – estimados em 20 mil invasores – e a presença de servidores da Funai, do Ibama e de militares durante a pandemia para conter a ilegalidade nessas áreas.

Garantir a proteção dos povos e comunidades indígenas durante e após a pandemia é garantir que o Brasil promova e respeite os direitos humanos, o meio ambiente e a agricultura, que depende dos serviços ambientais das florestas. É um compromisso que traz benefícios para a imagem do país, para a posição dos produtos brasileiros nos mercados internacionais e para as pessoas que vivem e protegem a floresta. Por isso, o interesse na segurança e bem-estar dos povos originários é de todos os brasileiros e um dever do Estado e, assim, exige medidas imediatas do Governo.

 

Sobre a Coalizão Brasil
A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura é um movimento multissetorial que se formou com o objetivo de propor ações e influenciar políticas públicas que levem ao desenvolvimento de uma economia de baixo carbono, com a criação de empregos de qualidade, o estímulo à inovação, à competitividade global do Brasil e à geração e distribuição de riqueza a toda a sociedade. Mais de 200 empresas, associações empresariais, centros de pesquisa e organizações da sociedade civil já aderiram à Coalizão Brasil – coalizaobr.com.br

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