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O que vem depois da Emergência Climática?

Estamos, há vários anos, continuamente apagando incêndios! Incêndios ambientais, culturais, educacionais, políticos, econômicos e tantos outros que refletem os preconceitos que inflamam as relações humanas.

Por que estamos deixando tudo pegar fogo? Acreditamos que não é com a gente? Oi???

Será que é porque acreditamos que não fomos nós que o ateamos? Portanto não temos responsabilidade alguma? Ou será que simplesmente gostamos de ver o circo pegar fogo?

Há três dias ficamos estarrecidos com o incêndio do galpão da Cinemateca Brasileira, estarrecidos com o descaso e principalmente com a destruição sistemática da cultura por aqueles que deveriam estar cuidando do patrimônio nacional. Depois do incêndio do Museu Nacional, em setembro de 2018, considerado a maior perda histórica e cientifica do Brasil, quem seria LOUCO de continuar a praticar esses descasos com o acervo histórico do país? Surreal! Diante de tudo isso você pode escolher entre a desconfortável e necessária visão do que está acontecendo ou ficar passivamente ignorando enquanto a boiada passa. Nem tudo é essa profunda tristeza, hoje o Museu da Palavra (Estação da Luz em São Paulo), incendiado em 2015, reabre para o público.    

Ainda bem que depois de amanhã volta a CPI da Pandemia! Já estávamos ficando sem circo. Esse ano teve o Big Brother, depois a CPI da pandemia, a Copa América, as Olimpíadas de Tokio (ainda em andamento) e na terça teremos a volta da CPI! Talvez o ditado popular “alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo” faça algum sentido…     

Estamos em crise e acredito que isso esteja claro para todo mundo… literalmente todo o mundo! É uma crise civilizatória que começou há algumas décadas e está cada vez mais grave. Começamos por olhar a questão climática que foi denominada “mudança climática” depois que a ciência comprovou claramente a nossa responsabilidade na alteração significativa do clima, alterando toda cadeia de sobrevivência das espécies e principalmente a nossa. Inacreditavelmente, uma enorme quantidade de seres da nossa espécie ainda não alterou seus hábitos para se readequar ao entendimento dessa nova realidade. Seja por questões de ganhos econômicos, de negacionismo ou simplesmente pelo desinteresse de alterar sua rotina. Estamos falando de 50 anos e não apenas dos últimos cinco. Com a dificuldade de conscientização da grande maioria, “Mudança Climática” foi alterada para “Emergência Climática” para salientar a gravidade do caminho que estamos escolhendo. Mesmo com todas as visíveis emergências climáticas batendo a nossa porta, continuamos negando o óbvio. Em Lytton no Canada as temperaturas chegaram a 49.6 graus no final de junho, as inundações gravíssimas, nos últimos 15 dias, na Alemanha, Bélgica e China e tantas outras consequências graves causadas por nossas ações. O frio que está passando pelo Brasil tem forte influência do calor movendo a massa polar da Antártida em nossa direção. Enfim fico pensando o que virá depois de emergência climática… catástrofe climática? Acredito que, lamentavelmente, já estamos vivendo esse momento.

Será que veremos uma luz no fim do túnel? Serão os jovens, como Greta Thunberg, que nos iluminarão? No prefácio do seu livro com ensaios biográficos “Homens em tempos sombrios” (Men in Dark Times), Hannah Arendt escreveu: “Mesmo no tempo mais sombrio, temos o direito de esperar alguma iluminação.” Vamos esperar esperançando! Hannah Arendt nunca esteve tão viva como agora. Sua obra nos faz revisitar o que estamos vivendo agora na pandemia. Vou citar o trecho completo do que escreveu, em 1968, no final do prefácio: “Que mesmo no tempo mais sombrio temos o direito de esperar alguma iluminação, e que tal iluminação pode bem provir, menos das teorias e conceitos, e mais da luz incerta, cintilante e frequentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi dado na Terra.”

Em que tempos estamos vivendo? Vivemos um momento de mundo BANI? O acrônimo BANI significa Brittle, Anxious, Nonlinear e Incomprehensible. Em português: Frágil, Ansioso, Não linear e Incompreensível. O conceito (2018) passou a ser usado especialmente para descrever um cenário do pós-pandemia, se é que existirá algo totalmente pós-pandemia. Ele tem a pretensão de substituir o acrônimo VUCA existente há mais de 30 anos. VUCA é a sigla em inglês para volátil, incerto, complexo e ambíguo. O conceito do VUCA, nasceu na escola de guerra do exército americano para treinar as situações do pós-guerra fria e foi, posteriormente, amplamente utilizado nas empresas principalmente nas situações de gerenciamento de crises e lideranças no chamado mundo VUCA. As pessoas já estão bem familiarizadas com as inúmeras interpretações do mundo VUCA. E o mundo BANI?   

Jamais Cascio, antropólogo e futurista do Institute for the Future da Universidade da Califórnia, que cunhou o termo, sugere a passagem de volatilidade para a fragilidade, da incerteza para ansiedade, da complexidade para a não linearidade e da ambiguidade para a incompreensão. 

Então o mundo era VUCA e agora é BANI? Por que precisamos rotular o mundo em que vivemos? Por que essa necessidade de explicarmos tudo, de controlarmos nosso entorno? Como disse Yuval Harari, o que fez o homo sapiens subir na escala da cadeia alimentar e chegar ao topo foi sua capacidade de acreditar no que não existe. Ou seja, acreditar no inacreditável! Pessoalmente prefiro acreditar nos conceitos da era das incertezas e da complexidade de Edgar Morin e com ele navegar pelos sete saberes necessários para uma educação do futuro. 😊  

E para não dizer que não falei da pandemia, acredito que ainda continuamos com as mesmas incertezas em quase tudo. O que podemos afirmar é que estão emergindo denúncias de que algumas (muitas) pessoas estão, vergonhosamente, aproveitando a pandemia para benefício próprio. Seja para o poder, corrupção, manipulação, prestígio ou outros motivos escusos. Minha esperança é de que elas sejam desmascaradas. Daqui a alguns anos ficaremos pasmos de saber o quanto não sabíamos e nos envergonharemos do quanto acreditamos no inacreditável.

Esse cenário surreal da Matrix brasileira está nos oferecendo uma possibilidade de escolhermos entre tomarmos a pílula azul (ignorância abençoada) ou a vermelha (verdade as vezes dolorosa). O que vai Ser?

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