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Esse é um texto (WORLD on FIRE) escrito por Charles Eisenstein, disponível no original (em inglês) no https://charleseisenstein.org/essays/world-on-fire/

A foto que ilustra o artigo foi gentilmente cedida pelo fotógrafo Mario Friedlander (instagram.com/mariofriedlander)

 

O MUNDO EM CHAMAS 

por Charles Eisenstein

O Pantanal brasileiro é a maior área úmida tropical do mundo, cobrindo uma área quase do tamanho da Grã-Bretanha. Só que hoje, não está tão molhada. Após um verão de seca, estão ocorrendo incêndios catastróficos que já devastaram 2,4 milhões de hectares de terra este ano. (Isso é mais do que queimou na Califórnia, Oregon e Washington juntos.) Sua preciosa vida selvagem, incluindo a maior população de onças-pintadas do mundo, está sofrendo danos irreparáveis.

 

O que está causando a destruição? As causas mais aparentes parecem bem diferentes do que está causando os incêndios na Califórnia, mas se nos aprofundarmos através de várias camadas o suficiente, chegaremos à mesma causa profunda e, portanto, à mesma solução profunda.

 

Desde 2019, incêndios catastróficos têm atingido a Amazônia, a bacia do Congo, Austrália, Sibéria, Argentina e inúmeros outros lugares. Enquanto alguns na Direita política negavam que algo incomum estivesse acontecendo, hoje todo o espectro político está de acordo em que algo está terrivelmente errado. Nos Estados Unidos, a Direita oferece explicações de candidato como manejo florestal deficiente, enquanto os políticos democratas enfatizam a mudança climática. O que os dois concordam é que o estado atual das coisas é anormal, inaceitável e requer ação. Isso, pelo menos, é um progresso.

 

Na verdade, ambos os lados estão abordando a mesma verdade por direções diferentes. Deixe-me começar com o manejo florestal, passar pelas mudanças climáticas através da porta dos fundos, visitar o comportamento flagrantemente criminoso por trás dos incêndios na Amazônia e no Pantanal e finalmente chegar ao cerne da questão.

 

Gestão florestal

 

Artigos da Direita sobre os incêndios nos EUA geralmente invocam a frase: “As florestas devem ser mantidas de maneira adequada para evitar incêndios catastróficos”. Frequentemente, a conclusão deles é que regulamentações governamentais pesadas impediram a indústria madeireira de abater árvores mortas e manejar as florestas com sabedoria. O problema, claro, é que, sujeitas às forças do mercado, as empresas madeireiras historicamente e até o presente manejaram as florestas de acordo com o lucro, não com a sabedoria. Outro problema é que, mesmo que superficialmente, não pode ser correto afirmar que as florestas exijam manejo humano. Há mais de doze ou quinze mil anos atrás, não havia nenhum humano na Califórnia, mas a natureza cuidava de si mesma muito bem.

 

A história não é tão simples – as florestas, então, como agora, exigiam manejo. Em tempos pré-humanos o manejo era realizado por outras espécies como, na América do Norte, castores, salmão e principalmente a megafauna. O continente fervilhava de herbívoros gigantes, como mamutes e mastodontes, que devoravam árvores que brotavam, arrancavam cascas, pisoteavam a vegetação e derrubavam árvores como tratores. Esses “engenheiros de ecossistema” criaram paisagens em mosaico de floresta e savana e tornaram as florestas menos densas. Após seu desaparecimento logo chegaram os humanos, os humanos os substituíram como engenheiros do ecossistema, usando queimadas controladas e muitos outros métodos para manter paisagens produtivas, resilientes e biodiversas que eram resistentes a incêndios catastróficos. Como Kat Anderson descreve em Tending the Wild (Cuidando da Natureza):

 

                       “Por meio de corte, poda, gradagem, semeadura, capina, queima, escavação, desbaste e colheita seletiva, eles incentivaram as características desejadas das plantas individuais, aumentaram as populações de plantas úteis e alteraram as estruturas e composições das comunidades de plantas. A queima regular de muitos tipos de vegetação em todo o espaço local criou um habitat melhor para a caça, eliminou os arbustos, minimizou o potencial de incêndios catastróficos e incentivou a diversidade de culturas alimentares. Essas práticas de colheita e manejo, em geral, permitiram a colheita sustentável de plantas ao longo dos séculos e possivelmente milhares de anos.”

 

Um cenário semelhante ocorreu na Austrália dezenas de milhares de anos antes: a colonização humana seguida pelo desaparecimento da megafauna, seguida por queimadas controladas primorosamente desenvolvidas e outras técnicas de gestão de ecossistemas. Em ambos os continentes, mesmo quando a megafauna desapareceu, outros engenheiros de ecossistema floresceram: pássaros migratórios, predadores de vértice, castores, insetos e assim por diante.

 

Nos últimos séculos, as florestas e outros ecossistemas passaram a ser manejados não para a saúde, mas para o lucro. Hoje vemos sinais de uma reviravolta à medida que os formuladores de políticas começam a reconhecer a necessidade de reduzir os materiais combustíveis nas florestas; às vezes até consultam povos tradicionais que se lembram dos velhos hábitos. Muitas vezes, porém, os motivos de lucro pervertem as práticas de desbaste da floresta, levando-as a produzir madeira para venda em vez da saúde da floresta.

 

Além disso, os combustíveis florestais é um foco muito estreito na compreensão dos incêndios catastróficos de hoje. Um século ou mais de desmatamento e outros abusos de terra reduziram a resistência das florestas aos incêndios e criaram condições de seca que as agravam. É comum declarar que as mudanças climáticas estão prejudicando as florestas, mas pode ser mais correto dizer que os danos às florestas causam as mudanças climáticas, que prejudicam ainda mais as florestas.

 

O corte raso da floresta afeta o clima muito além da oxidação do carbono armazenado. Sem folhas, serapilheira (material orgânico em decomposição) e raízes para protegê-la, a camada superficial do solo é lavada e a água da chuva não tem chance de penetrar na terra. As inundações resultantes são inevitavelmente seguidas de secas. Por quê? Uma floresta saudável transpira água subterrânea, mantendo as condições de umidade e prolongando a estação das chuvas. Globalmente, pelo menos 40% das chuvas se originam da transpiração das plantas; na Amazônia é de 70%.

 

As florestas também contribuem para o resfriamento local, regional e global, à medida que a água transpirada evapora e sobe para a atmosfera. Seu calor latente é liberado quando ela se condensa mais acima, parte da qual irradia para o espaço. Além disso, as florestas saudáveis ​​emitem compostos e partículas de nucleação de gelo, aumentando a cobertura de nuvens, criando chuva e refletindo a luz solar de volta ao espaço. Florestas nativas desempenham essas funções especialmente bem (apenas 1% das florestas nativas da Califórnia permanecem). Aqui está uma passagem, ligeiramente modificada, de meu livro sobre o clima:

 

O Quênia, que perdeu a maior parte de sua cobertura florestal na última metade do século, também está sofrendo com secas persistentes e temperaturas mais altas. Regiões do Quênia, onde a temperatura diurna na floresta pode ser de 19 graus, registram temperaturas nas proximidades, onde recentemente limparam terras agrícolas, de 50 graus.… Em Sumatra, as terras desmatadas para plantações de óleo de palma foram

 

10 graus mais quentes do que a floresta tropical próxima e permaneceu mais quente mesmo quando as palmeiras amadureceram.

 

Uma floresta real e viva interage com o ciclo da água de maneiras complexas que a ciência está apenas começando a entender. (Muito do que se segue é proveniente do fantástico livro Global Deforestation, de Runyan & D’Odorico.) Uma maneira é convertendo umidade em chuva. O vapor de água na atmosfera não necessariamente cai como chuva, mas pode persistir como neblina no que é conhecido como “seca úmida” (humid drought). Uma razão para a formação de neblina é uma superabundância de pequenos núcleos de condensação, o que impede que as gotas de água se tornem grandes o suficiente para cair como chuva. Poluentes, fumaça de incêndios florestais e poeira de solo desidratado estão entre os culpados pela formação de névoa. Sobre as florestas, os núcleos de condensação são principalmente biogênicos, incluindo detritos de plantas, bactérias, esporos de fungos e aerossóis orgânicos secundários originados como compostos orgânicos voláteis emitidos pela vegetação. Isso ajuda na formação de nuvens carregadas de precipitação em vez de neblina, e permite a formação de nuvens em temperaturas mais altas do que os núcleos abióticos. Pesquisas recentes confirmam o aumento da cobertura de nuvens sobre e perto das florestas. Essas nuvens mais baixas e espessas têm um efeito de resfriamento maior do que as nuvens de grande altitude. De acordo com um pesquisador, um aumento de 1% no albedo (coeficiente de reflexão) das nuvens geradas pela floresta compensaria todo o aquecimento das emissões antropogênicas de gases de efeito estufa.

 

As florestas saudáveis ​​não apenas reciclam a chuva, mas também a retiram do oceano por meio do mecanismo da bomba biótica. O vapor de água evapotranspirado se condensa para criar zonas de baixa pressão, que puxam um novo ar carregado de umidade dos oceanos e afetam os padrões globais de vento e, portanto, os padrões de chuva. Quando as florestas são danificadas ou destruídas, a fisiologia da Terra fica comprometida.

 

No oeste dos Estados Unidos, o represamento de rios e o quase extermínio de castores também causou danos incalculáveis ​​às florestas e ao clima. As barragens evitam inundações sazonais, alteram a distribuição de sedimentos, levam à erosão a jusante e impedem os peixes migratórios que transportam nutrientes marinhos para a floresta e desempenham um papel fundamental nas cadeias alimentares. Os castores criam pântanos, aumentam a biodiversidade e reduzem a velocidade da água para mitigar inundações e sustentar os lençóis freáticos. Na verdade, a extinção de qualquer espécie enfraquecerá toda a floresta (ou qualquer ecossistema), assim como sua saúde sofreria se você destruísse um tipo de tecido ou célula. Após séculos de destruição do habitat ao redor do mundo, é incrível que a Terra ainda esteja se agarrando à saúde.

 

Criminalidade e Ignorância

 

Meu amigo brasileiro Alan Dubner me descreveu a “cascata de criminalidade” que está destruindo a Amazônia. Primeiro vêm os madeireiros, usando métodos sofisticados para escapar da aplicação do governo às proibições de madeira. O que sobrou seca facilmente e pode ser queimado pelos criadores de gado, que pastam seu gado no que está tentando crescer novamente. Em seguida, vêm as plantações de soja, exaurindo qualquer fertilidade que resta no solo. O que resta é basicamente um deserto, inútil para ninguém, exceto as empresas de mineração que acabam com a ruína.

 

Quanto mais da Amazônia é destruída, menos chuva ela pode puxar do oceano Atlântico e mais vulnerável a incêndios. O declínio das chuvas afeta o resto do Brasil, desde o Pantanal ao sul. Na verdade, o poder da bomba biótica amazônica é tal que sua desestabilização altera os padrões climáticos em todo o mundo.

 

O Pantanal é afetado não apenas por mudanças nos padrões climáticos, mas também por grandes barragens hidrelétricas e invasão progressiva de pecuaristas. As grandes zonas úmidas do Pantanal tornam-se altamente inflamáveis ​​quando secam, dando a proprietários de terras e especuladores inescrupulosos a oportunidade de provocar incêndios. A renomada ambientalista brasileira Marina Silva me escreveu o seguinte comentário: “Tragédia orquestrada. É o que está acontecendo no Pantanal aqui no Brasil. Desmonte das políticas ambientais, corte de recursos para combater desmatamentos e queimadas, tudo isso em uma ação de criminosos, o resultado não podia ser outro.”

“O que precisa ficar claro é que as queimadas no Pantanal e na Amazônia não são acidentais. Fazem parte de um projeto e de uma visão de mundo que despreza o meio ambiente, com os quais o governo compactua e incentiva. Não importa se é o território com maior diversidade de mamíferos do mundo, a maior área úmida do planeta e com maior presença de onças-pintadas.”

Vamos dar um passo para trás por um momento. A criminalidade de que Marina Silva fala é especialmente danosa por causa das condições trazidas por outra criminalidade em outras áreas, como a Amazônia. No entanto, não podemos culpar inteiramente a criminalidade pelos incêndios do mundo. Afinal, a maior parte do desmatamento e degradação florestal é perfeitamente legal. O problema está na mentalidade e nas forças econômicas subjacentes à destruição das florestas, sejam elas criminais, legais ou mesmo inconscientes.

 

A extração ilegal de madeira e queimadas estão no mesmo espectro que os conservadores de “mau manejo florestal” culpam pelos incêndios nos Estados Unidos. Em vários graus, ambos suprimem em vez de participar dos processos naturais. Eles compartilham do padrão de dominação: dominação física construída sobre o rebaixamento conceitual de que florestas vivas são meras coisas. Os conservadores estão, em certo sentido, corretos, exceto que a “má gestão” vai muito além da supressão de incêndios para abranger toda a relação da sociedade moderna com a floresta. Além disso, esse relacionamento ruim gera muitas das condições pelas quais os políticos progressistas culpam as mudanças climáticas. Em certo sentido, eles também estão certos, exceto que a mudança climática abrange muito mais do que o aquecimento global induzido pelos gases de efeito estufa, e é tanto uma consequência quanto uma causa da degradação florestal.

 

Reverência e Relacionamento

Embora engenheiros, ecologistas e especialmente povos indígenas possam oferecer técnicas para administrar adequadamente as florestas e restaurá-las à sua resiliência, a transição para um mundo curado (healed) requer algo muito mais profundo do que melhores técnicas. Mais importante é aprender a incorporar a fonte de onde surgem as práticas de gestão de terras indígenas. Essa fonte é uma maneira de ver, conceber e de se relacionar com a natureza. É também uma forma de nos compreendermos: quem somos e porque estamos aqui.

 

Fundamentalmente, a fonte de sabedoria do manejo florestal é ver e conhecer a natureza como um ser, não uma coisa. É o melhor que posso dizer, mas não é bom o suficiente. As próprias palavras me induzem ao erro. A natureza não é algo separado de nós mesmos, e nem mesmo “coisas” são apenas coisas. Deixe-me dizer então que as culturas tradicionais e indígenas vivem em um mundo onde o ser está em toda parte e em tudo, e os humanos não são mais nem menos sagrados do que as árvores, montanhas, água ou formigas.

 

No nível mais óbvio, a visão da natureza como coisa facilita muito o corte raso, mineração, extração e lucro, assim como a desumanização de outras pessoas permite sua exploração e escravidão. É o mesmo modelo mental básico. Mas também há outro problema: a mentalidade da natureza-como-coisa nos impede de entrar na intimidade do relacionamento que é necessário para cuidar, curar e co-criar com ela para benefício mútuo. É como a diferença entre um médico que o trata impessoalmente, como um “caso”, e aquele que o vê como um ser humano pleno.

 

No mês passado, o estado da Califórnia se comprometeu com um programa de desbaste florestal de 20 anos que visa reduzir incêndios por meio de derrubada de mato, extração de madeira e queimadas prescritas. Este programa está repleto de possíveis consequências não intencionais. Quando entendemos uma floresta como um organismo, um ser, em vez de um objeto de engenharia, reconhecemos conceitos de engenharia como a redução de combustíveis florestais como, na melhor das hipóteses, um primeiro passo. Afinal, uma floresta saudável requer matéria vegetal em decomposição para nutrir fungos, invertebrados etc. que são elementos cruciais da ecologia florestal. Como sabemos quanto mato (brush) limpar e quantas toras remover? Só podemos aprender isso através da observação atenta e de um longo relacionamento. Aqui, a experiência dos povos nativos (indígenas) locais pode ser inestimável, pois eles acumularam esse conhecimento ao longo de inúmeras gerações. Aprender com os erros inevitáveis ​​que ocorrerão no programa de desbaste da floresta exigirá humildade, o tipo que surge quando se sabe que está se relacionando com um ser vivo complexo. Caso contrário, tropeçamos de um erro para o outro, assim como quando, no esforço de aumentar o sequestro de carbono, plantamos árvores ecológicamente e culturalmente inadequadas que acabam morrendo algumas décadas depois, deixando as condições ainda piores do que antes.

 

Outra palavra para a atitude que citei como a fonte da qual surgem as práticas de gestão de terras indígenas é “reverência”. Reverenciar algo é o oposto de reduzi-lo a uma coisa. Pessoas modernas e educadas viveram muito em uma matriz ideológica que diz que a natureza, no fundo, é meramente um turbilhão de partículas genéricas sacudindo de acordo com forças matemáticas. O que há para reverenciar? Diz que propósito, inteligência e consciência subsistem apenas nos seres humanos. O incêndio do mundo nos chama a despertar dessa ilusão.

 

Pela atitude de reverência, vemos coisas invisíveis aos olhos do engenheiro. Fazemos perguntas que o utilitarista nunca faz. Paradoxalmente, no final, o conhecimento assim obtido serão mais úteis – não apenas para a floresta, mas para nós mesmos – do que qualquer coisa que poderíamos realizar com a mentalidade exploradora.

 

Na verdade, não estamos separados da natureza. O que fazemos ao outro, em última análise, fazemos a nós mesmos. Quando as florestas estão doentes, estamos doentes. Quando elas queimam, mesmo que escapemos das chamas, algo queima dentro de nós também. O clima social reflete o clima geológico. Podemos não reconhecer essa verdade como os indígenas reconhecem, mas somos a terra. Não é óbvio, olhando para o cenário político de hoje, que um incêndio está fora de controle?

 

Não consigo estabelecer facilmente uma conexão causal aqui, mas parece significativo que incêndios florestais incontidos sejam contemporâneos de retórica inflamada, debates acalorados, temperamentos inflamados, ódio ardente, desconfiança fervilhante e ressentimento latente. Assim como as florestas secas e carregadas de material combustível queimaram fora de controle com uma simples faísca, assim também nossas cidades queimaram quando a centelha de assassinatos da polícia atingiu o combustível de gerações de racismo; décadas de decadência econômica e meses de confinamento em Covid. Nosso ecossistema social está tão danificado e esgotado quanto as florestas que são tão sujeitas ao fogo. A matriz de relações complexas que chamamos de comunidade desabou em grande parte em relações simplificadas com instituições impessoais, mediadas por dinheiro e tecnologia. As redes sociais podem dar a aparência de comunidade, mas carecem da interdependência que marca uma comunidade real (ou ecossistema). Podemos ver agora como essa sociedade é frágil – ou inflamável.

 

Não serei ousado a ponto de dizer que abordar nossa separação social apagará os incêndios. No entanto, pode-se ver como o projeto de cura da terra por meio da reverência e do relacionamento é congruente com o projeto de cura social, que também depende da restauração da reverência e do relacionamento.

 

A Porta de Entrada Chamada Encantamento (The Doorway Called Enchantment)

 

Eu moro no nordeste da terra que as pessoas chamam de Estados Unidos. Aqui, o fogo ainda não é uma grande ameaça. Algumas semanas atrás, eu estava caminhando com meu irmão na floresta atrás de sua fazenda na Pensilvânia, onde o terreno inclinado dá lugar à encosta da montanha. Cruzamos um riacho, um filete nu em alguns lugares e seco em outros. John me contou que esteve aqui com um veterano que disse que, em sua juventude, este riacho era tão profundo e forte, mesmo em agosto, que havia poucos lugares onde se podia atravessá-lo. O que aconteceu com esse ser, esse riacho? Alguns moradores dizem que é porque muitos poços foram cavados, baixando os lençóis freáticos e secando as nascentes que alimentam os riachos. Outros dizem que é por causa do corte repetido da montanha, que remonta à época colonial. Ou talvez, pensei, seja novamente um resultado demorado da cascata de mudanças que se seguiram ao extermínio de lobos, pumas e castores. Todas essas atividades são um insulto à terra e à água, alheios à reverência.

 

Em última análise, para parar os incêndios e entrar no caminho da cura do mundo, devemos passar da dominação e subjugação à reverência e respeito. Às vezes, isso significa assumir o papel de protetora de seres vulneráveis ​​e preciosos, como Marina Silva está fazendo no Brasil. (Aqui está uma organização com a qual ela trabalha, junto com outras que mencionei em meu artigo de 2019 sobre os incêndios na Amazônia.) Às vezes, significa assumir o papel de nutridor ou curador, como as pessoas reintroduzindo castores, praticando agricultura regenerativa e construindo paisagens de retenção de água. Para alguém no mundo corporativo ou financeiro, a reverência pode levá-lo a escolher a vida ao invés do lucro em um momento em que é necessário um pouco de coragem para fazer isso. Essa coragem é uma versão diluída da coragem de ativistas indígenas sul-americanos que correm o risco de serem torturados e assassinados por proprietários de terras, madeireiras, mineradoras e seus paramilitares, porque coloca algo mais acima da maximização do interesse pessoal. É, portanto, um importante ato de solidariedade.

 

A reverência traz coragem. A reverência traz conhecimento. A reverência traz habilidade. A reverência traz cura. É o fulcro da grande virada da civilização em direção ao reencontro com a natureza. Hoje a palavra tem conotações religiosas, mas esse não é o tipo de reverência que adora um ídolo. É a reverência do amante que olha nos olhos da amada e vê o infinito.

 

Se a reverência traz todas essas coisas, então o que traz reverência? Não basta apenas exortar as pessoas a serem mais reverentes. A porta de entrada para a reverência é o encantamento. Há alguns dias, estive com meu filho Cary, de sete anos, no último lago costeiro não desenvolvido de Rhode Island observando tartarugas. Sentimos o que é ser aquelas tartarugas. Mal podíamos parar de observá-las. Naquele momento, o pensamento de que iríamos prejudicá-las por qualquer coisa menor do que um propósito sagrado era horrível e absurdo. Nós as conhecíamos como preciosas em si mesmas, e não para qualquer uso para nós. Poucas pessoas, sentindo aquele momento, poderiam escapar daquele encantamento. No entanto, todos os dias, participamos de sistemas que tratam as tartarugas e muito mais como recursos a serem explorados, ou que as transformam em danos colaterais em outra exploração. Não podemos evitar essa participação, pois vivemos nesse sistema, e esse sistema vive em nós. Cada vez mais, pessoas como nós, não se sentem mais à vontade com esse pensamento. Ele não pode acomodar facilmente nossa reverência, nosso encantamento e nosso verdadeiro propósito de servir à vida.

 

Executivos de mineradoras ou membros de esquadrões da morte a serviço de fazendeiros podem estar muito longe da porta do encantamento. O princípio da reverência gerada pelo encantamento não substitui a ação legal, a ação direta não violenta e assim por diante. No entanto, um planeta curado não resultará de uma sucessão de ações desesperadas de contenção. Precisamos nos basear na experiência direta da Terra, obviamente tão preciosa quanto as tartarugas foram para Cary; conhecê-la como ser e como organismo, e precisamos difundir esse conhecimento. Então, teremos a clareza, a coragem, a habilidade e, o mais importante, os aliados em lugares improváveis, para defender suas partes vulneráveis, para preservar e fortalecer seus órgãos e para fazer a transição de sistemas construídos na mitologia da Terra-como -coisa.

 

Charles Eisenstein – Setembro de 2020

 

(traduzido por Alan Dubner)

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