Estou lendo o “The Power of Presence” do Peter Senge e novamente fica claro o quanto as escolas estão LONGE de conseguir ensinar alguma coisa aos alunos. Enquanto os pais, professores e gestores do ensino não mudarem COMPLETAMENTE seu modo de ver a aprendizagem eles estarão perdendo um precioso tempo.
Por mais incrível que pareça nossos filhos têm tudo para serem muito bem sucedidos nesse novo mundo sócio-econômico. Mas o que os tira desse caminho somos nós, pais e educadores. O futuro é aqui e agora. Abra sua mente e principalmente o seu coração para o que já está acontecendo na educação e tenha uma “escuta generosa” para as novas habilidades requeridas para o profissional de hoje.
Por que pais e educadores, os mais interessados no sucesso dos filhos e alunos, fazem o contrário do que é preciso para prepará-los para o futuro? Simples: falta de conhecimento.
Tenho visto pais entrarem nas escolas e perguntarem onde está o laboratório de informática e quantos computadores tem por aluno. Falta-lhes a informação da total inutilidade de um laboratório de computadores, assim como seria inútil (no tempo deles) um laboratório de canetas e lápis. Por outro lado, as escolas mantêm esses laboratórios por duas razões: apenas para os pais verem ou – bem pior – porque não sabem de sua inutilidade. O próprio nome “informática” é mal compreendido e muitas escolas, em vez de ensinarem a ciência da informação, ensinam Windows, Word, Excel, Photoshop, Corel e outros. Seria como ensinar a utilizar garfos, pratos, colheres e panelas, em vez de ensinar a cozinhar.
Sendo a comunicação e a informação tão importantes para as profissões do futuro, porque as escolas mal tocam de verdade nesse assunto? O livro “As Profissões do Futuro”, de Gilson Schwartz , foi escrito em 2000 e é impressionantemente atual. Gilson nos diz que três palavras resumem a sua visão: rede, conhecimento e cidadania. “As oportunidades de sobrevivência digna estarão cada vez mais condicionadas, em cada sociedade, pelas possibilidades de criação e multiplicação de redes de conhecimento”, afirma.
Lamentavelmente, as escolas ainda estão desenhadas ao contrário, formando alunos que acreditam que o objetivo principal da escola é o Vestibular. E para piorar, muitos pais e educadores reforçam essa idéia. Com isso, a grande maioria dos alunos não está preparada para a faculdade e muito menos para o futuro mercado de trabalho. E quanto às avaliações? As pesquisas mostram que os profissionais bem sucedidos foram na sua maioria mal avaliados em suas escolas e que a maior parte dos bem avaliados não está bem posicionada no mercado de trabalho. O que isso quer dizer? Será que temos que questionar o atual sistema de avaliação? Sim, temos que questionar. E muitos já o estão fazendo. O livro “Fomos Maus Alunos” de Rubem Alves e Gilberto Dimenstein é um presente para essa reflexão. Recomendo a todos os pais interessados em Educação essa deliciosa e rápida leitura de um bate-papo entre os dois.
As habilidades necessárias para o profissional do século XXI (que já começou) demandam que a pessoa seja auto-motivada, auto-dirigida, colaborativa, que tenha senso de cidadania (responsabilidade social e ecológica) e que trabalhe em rede. Enquanto isso, as escolas continuam ensinando o contrário. Os alunos aprendem uma obediência cega à hierarquia para não serem punidos. As lições não são feitas por interesse ou curiosidade e sim porque “vale nota”. Os alunos aprendem a acreditar no que está escrito (sem questionar ou refletir), aprendem a competir para vencer (sem compartilhar ou cooperar) e humilham seus colegas diante do grupo, com a maior naturalidade, já que o próprio professor muitas vezes também o faz. Notas e punições acabam sendo (ainda) a base do sistema de educação. Isso porque apesar de já estar claro que esse sistema não funciona mais, poucos sabem o que colocar no lugar e como fazer isso. Enfim… essa escola está morta, mas ainda não foi enterrada. Cabe aos pais e educadores não permitir que esse modelo continue a existir.
Imagine a seguinte experiência: coloque todos os professores de uma mesma escola numa sala e diga que eles serão avaliados. Sinta a reação de cada um, aplique um teste de QI (veja o medo da maioria), exiba os resultados abertamente, dê os parabéns àqueles que se saírem bem e recomende aos que ficaram abaixo da média para procurarem ajuda. Afinal de contas, um professor precisa ser inteligente! Tenho certeza que a simples proposta vai gerar uma comoção entre os professores…Não vai? Mas se pensarem bem, é isso que a educação está fazendo, sistematicamente, com os alunos. Para que?
O maior equívoco dos pais é acreditar que uma escola que exige muito do aluno é uma boa escola. Os pais aprenderam de seus pais que para se ter um bom futuro é necessário se sacrificar para isso. Portanto, traduzem que uma escola que está mais preocupada em formar seres humanos e cidadãos conscientes em vez de focar no vestibular é uma escola alternativa e provavelmente fraca. Ledo engano! A Escola da Ponte, em Portugal, prova claramente o contrário! Lá, os alunos não têm aulas regulares, conteúdo programático, provas ou notas. O aluno aprende dentro do seu próprio interesse. Segundo José Pacheco, a preocupação deles é com o desenvolvimento do aluno e não com a grade curricular. Resultado: por ser uma escola pública e estar completamente fora do “esquema” de ensino, o estado depois de tentar tudo para acabar com a escola resolveu fazer um “provão” para humilhá-los com as notas baixas de seus alunos. Mas para surpresa geral, a Escola da Ponte ficou em primeiro lugar. Seus alunos obtiveram as melhores notas do país. Nos Estados Unidos, um número muito grande de escolas saíram do esquema formal de ensino. O resultado é que atualmente não é mais obrigatório fazer uma escola oficial, basta passar nos exames.
George Lucas afirmou que no seu tempo a escola era uma chatice total entrecortada por alguns poucos professores maravilhosos que foram responsáveis pela sua formação. Ele pergunta: “Por que a escola precisa ser assim chata? Porque não pode ser maravilhosa com raros momentos ruins?” Ele não ficou de braços cruzados. Montou uma das maiores entidades voltadas para a educação do mundo: a George Lucas Educational Foundation (www.glef.org) que tem produzido o que há de melhor na formação de educadores. Vale a pena ler, ouvir e ver o seu projeto (Edutopia).
Os professores não terão que correr para aprender sobre esse novo mundo, muito pelo contrário. Só precisam se abrir para a idéia de que o aluno pode saber mais do que ele sobre um determinado assunto… e tudo bem ser assim! Só isso! Exemplo: durante uma aula sobre reconhecer pegadas de animais, um aluno se interessou em colecionar diferentes pegadas e na pesquisa achou um jogo de descobrir pegadas no habitat do animal… só que o site era na Alemanha . O colega retrucou que estava escrito em alemão e ninguém ali sabe ler. Um terceiro aluno disse que conseguia ler qualquer coisa em qualquer língua – esse aluno “ensinou” todos da classe a usar um tradutor automático – disponível hoje na Internet, para quem souber procurar. Num outro dia, um quarto aluno mobilizado pela aprendizagem trouxe uma opção mais eficaz para traduzir e após algumas semanas a classe toda conseguiu acessar todo o conteúdo da web em português. Com tudo isso, surgiu também a questão do “Internetês” e a crença de que ele vai fazer todo mundo desaprender o português.
A classe começa a debater e a pesquisar o assunto e conclui que - pelo contrário – a Internet está promovendo a leitura e mobilizando a criação de uma nova linguagem, que não substitui a anterior, mas se soma a ela. O texto que escolhem para apoiar a discussão chama-se “Discutindo a Língua Portuguesa”, escrito por Sírio Possenti e disponível em seu website. E assim, o grupo caminha das pegadas dos animais à tecnologia, passando por países, idiomas, questionamentos e reflexões. Embora as disciplinas de Geografia, História, Português e Ciências estejam presentes no estudo, fica absolutamente claro que as fronteiras da aprendizagem vão muito além da “matéria”. É preciso tocar também o invisível, criando interesse, comprometimento, responsabilidade e visão coletiva. Mas não é fácil conseguir isso! Portanto, os pais precisam buscar informações sobre quais as habilidades serão requeridas quando seus filhos forem para o mercado de trabalho. E devem pesquisar o que a escola está fazendo nessa direção… de verdade e não só na sua propaganda . Algumas perguntas a serem feitas para a escola:
1- Qual a filosofia da escola?
2 – Como trata a tecnologia da informação? Ainda tem laboratório de informática?
3 – Como lida com a inteligência emocional e as múltiplas inteligências em geral?
4 - Os professores estão alinhados com a escola?
5 – Como realmente lidam com os problemas? Peça exemplos práticos.
6 – Como avaliam os alunos?
7 – O que pensam e o que fazem quanto à preparação para o vestibular?
Precisamos mudar um importante paradigma para o bem dos nossos filhos. Uma escola que valoriza o desenvolvimento do aluno é uma escola que escolheu a difícil tarefa de ensinar a aprender e provavelmente fará o seu filho obter os melhores resultados nos exames. Mudar um paradigma qualquer não é uma tarefa fácil. Portanto, proponho que entendamos a importância dessa escolha e dediquemos tempo estudando o que há nesse caminho. Além das idéias acima, sugiro a leitura de mais 5 bons livros:
1. Presença – Peter Senge, Otto Sharmer, Joseph Jaworski e Betty Flowers – trata do processo de aprendizagem. Imperdível!
2. Inteligência Social – Daniel Goleman – esse último livro é uma obra prima para entendimento do SER do ser humano e de nossas conexões. Leitura obrigatória!
3. A Escola que Aprende – Peter Senge – um livro definitivo para entender os “porquês” e “comos” das mudanças que as Escolas estão vivendo. Obrigatório para educadores! Se na sua escola não seguem esses ensinamentos: mude de escola já!
4. Freakonomics – Stephen Dubner e Steven Levitt – um livro que fará você nunca mais cair no conto do “senso comum”. Você verá tudo com um olhar mais real. Ajudará, de uma forma despretensiosa, a pensar “fora da caixa”.
5. O Mundo é Plano – Thomas Friedman – reúne a visão da transformação que estamos vivendo e propõe um olhar para a educação. Leia a segunda edição revisada!
Depois de tanta reflexão, nós – pais e educadores – temos duas escolhas: continuar dormindo ou acordar. O que você escolhe?

2 Comentários
Novembro 17, 2008 ás 11:59 pm
Adorei ler este blog. Sou educadora e sei que despertei para um novo mundo. Não só como profissional mas principalmente como ser humano, até porque antes de sermos qualquer coisa somos seres humanos. Obrigada pela dica dos livros . O primeiro que quero ler é a Escola que aprende – Peter Senge.
Novembro 18, 2008 ás 9:07 am
Sinceramente, um dos melhores textos que já li sobre as mudanças necessárias na educação! Parabéns!
Tenho 22 anos e sempre fui apaixonada por tecnologia. Quando entrei na faculdade, há 5 anos atrás, me descobri também apaixonada pela educação.
Atualmente, trabalho tentando descobrir novas possibilidades de unir as 2 coisas, pois não há mais como andarem separadas.
Trabalho em uma instituição de ensino que, de certa forma, me permite isso, mas me sinto frustrada com o nível de educação que temos no restante do país. Um modelo obsoleto e há muito desgastado.
Espero que o meu trabalho contribua para que daqui há alguns anos, os educandos possam expor mais da sua capacidade em sala de aula, sem medo de serem reprimidos por seus educadores.
Obrigada pelas dicas de livros! Já havia lidos alguns, mas nenhum do Peter Senge. Vou adquirir hoje mesmo!
Voltarei sempre aqui!
Parabéns pelo excelente blog!